sexta-feira, 3 de janeiro de 2014


A fé e a memória


Há vários anos, não me lembro quantos, um colega protestava, em tom de pergunta, contra os muitos processos de beatificação e canonização: Isso para que serve? Perguntava ele.
Como a pergunta vinha em tom de censura, não gastei tempo a dar qualquer resposta; nem esse é o meu propósito neste momento, até porque também a ela responde de certo modo o que diz o Papa no nº13 da Evangelii Gaudium.
Aí, entre outras coisas, pode ler-se, já no último parágrafo: O crente é, fundamentalmente, «uma pessoa que faz memória».
 Reparemos bem, que o Papa não diz que o crente é uma pessoa de memória, que se lembra disto ou daquilo, mas «uma pessoa que faz memória».
De facto, “fazer memória” é muito mais do que lembrar-se, ter memória.

Na maior pare das festas e comemorações que se realizam por aí, a lembrar pessoas e acontecimentos do passado, não se faz mais do que tentar avivar a memória, que o tempo vai apagando, reduzindo os contornos emocionais que ajudam a mantê-la viva, durante um certo tempo, até que tudo se apague.
No cristianismo, como em todas as religiões e culturas, também há muitas memórias destas. Umas que se apagam totalmente, outras que são absorvidas, com mais ou menos prejuízo da realidade, pelas tradições culturais. E aí sofrem o tratamento de tudo o que é tradição e não passa de tradição.

Às vezes fica-se apenas com o discurso. Outras nem isso. E quando fica o discurso, acontece com frequência alterarem-se de tal modo os conteúdos, que já não temos nada de cristão por onde lhes pegar.
É a lei da história: não vale a pena lutar contra a inevitabilidade das transformações culturais que nascem da vida das sociedades.

Mas na fé cristã, há coisas que não podem reduzir-se a simples tradições, sob pena de ficarmos com uma fé sem conteúdos, reduzindo o cristianismo a um fenómeno puramente cultural, sujeito aos efeitos do tempo, que inevitavelmente consome tudo o que dele depende.
Basta pensarmos nos sacramentos, que, bem vistas as coisas são o que há de especificamente cristão, já que, pelo menos do ponto de vista formal, tudo o mais se encontra em qualquer outra religião.
De facto, acreditar que determinados ritos, realizados em certas condições, pela comunidade crente, tornam presentes – sem os repetirem, diminuírem ou enriquecerem - os gestos salvíficos de Jesus Cristo, Fundador e Fundamento de toda a estrutura sacramental da Igreja, é algo tão específico da fé cristã, que, por mais que procuremos, não encontramos nenhuma outra atitude religiosa que se lhe iguale.

Daqui podemos concluir que, quando se trata de cristãos, a distinção entre praticantes e não praticantes é pelo menos equívoca e pode carecer totalmente de sentido:
O Papa diz que o crente é, fundamentalmente, «uma pessoa que faz memória».
E como faz ele memória senão através dos sacramentos?
De facto Jesus, no momento da instituição da Eucaristia, depois de afirmar que aquele pão e aquele vinho já não é pão nem vinho, mas o Seu Corpo e o Seu Sangue, entregues pela salvação da humanidade, ordena aos Discípulos:
Fazei isto em memória de mim!
Isto é, como que concretizando o gesto pelo qual, no Jordão, deu início aos ritos que, pela acção do Espírito Santo, fazem de realidades cósmicas elementos da história da salvação, ordena que se faça memória permanente desta sua imolação no seio da comunidade por Ele fundada.
Fazer memória, no sentido bíblico e teológico, que é aquele em que o Papa emprega a expressão, é o que acontece, sempre que a comunidade cristã se reúne para celebrar, comunitariamente e com ritos adequados a sua fé comum.
Em face disto, se, como diz o Papa, o crente é, fundamentalmente, «uma pessoa que faz memória», que sentido terá um cristão, sobretudo um católico, dizer-se não praticante?
Pode legitimamente perguntar-se-lhe, quando se diz, por exemplo, católico não praticante, se não estará a confundir a adesão ao catolicismo com uma atitude puramente cultural, ou, o que seria ainda pior, com a pertença a uma associação de cuja vida e estatutos aproveita o que mais lhe interessa.




segunda-feira, 9 de dezembro de 2013


EVANGELII GAUDIUM

REFLEXÕES SOLTAS

Sem ter a pretensão de ensinar seja o que for a quem quer que seja, pensei que podia oferecer a quem me queira ler e comentar algumas reflexões soltas sobre a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium.

1: O homem é mais do que o homem

 É somente graças a este encontro – ou reencontro – com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, que somos resgatados da nossa consciência isolada e do egocentrismo. Tornamo-nos plenamente humanos, quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos, a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro. Aqui está a fonte da acção evangelizadora. Porque, se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o comunicar aos outros?(EG,8)

Começo por adaptar, não propriamente o texto, que aparece sem que nos dêem o original oficial, marca mais negativa do que se poderia pensar. Não adapto o texto, mas a versão portuguesa, que não me parece ter a dignidade dos ensinamentos do Papa:

“Auto-referencialidade”, em meu entender, termo decalcado, mais do que traduzido, é um neologismo escusado: no fundo, o que o Papa quer dizer fica suficientemente expresso com o nosso “egocentrismo”.
“Chegamos a ser completamente humanos”, é um decalque claro, talvez sobre o castelhano. Mas o Papa não fala propriamente de uma viagem, a não ser em sentido metafórico, e isso dir-se-ia, em português correcto, de outro modo.
Aqui trata-se essencialmente de uma transformação interior que, no contexto da doutrina pontifícia, é mais resultado de um acolhimento do que de uma luta, uma caminhada.

Aliás, vai sendo tempo de reduzirmos na nossa mente o espaço dado ao conceito de luta, conquista, que associamos a tudo o que se relaciona com a fé.
Neste campo, parece que o conceito fundamental é o acolhimento: acolhimento de Deus e daqueles que Ele ama.
Na fé, em qualquer dos casos, é sempre Deus que toma a iniciativa: parafraseando um autor francês contemporâneo, antes de acreditarmos em Deus, é Ele que acredita em nós.
Será o que o Papa exprime com a ideia de encontro:

É somente graças a este encontro – ou reencontro – com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, que somos resgatados da nossa consciência isolada e do egocentrismo.

Isolado e centrado em si mesmo, tomando-se como referência fundamental dos valores que o orientam, o homem não tem saída, nem teórica nem prática, para aquilo que o atormenta.

Podemos dizer a que as interrogações do homem sobre si próprio são tão antigas como o próprio pensamento: desde a mais remota antiguidade que a filosofia e a arte não se cansam de pôr em realce este mistério, que, de facto não encontra resposta nas categorias intramundanas.

Pascal, que neste capítulo repete Eusébio de Cesareia, diz que “o homem ultrapassa infinitamente o homem”, e é partindo daqui que Mgr Albert Arouet, ao apontar algumas das ideologias que têm feito a infelicidade da Europa dos últimos séculos, diz, com toda a propriedade: “Porque o homem que quer definir o homem está sempre a ponto de o limitar. A fé diz-nos que é Deus, o Ilimitado, que vem, não definir, mas pôr o homem perante um horizonte sem limites”.

É outra maneira de expressar o que diz o Vaticano II, num documento que, lido na sua globalidade – coisa que talvez nunca tenha sido realizada devidamente – se conserva plenamente actual:

“Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente. Adão, o primeiro homem, era efectivamente figura do futuro, isto é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime. Não é por isso de admirar que as verdades acima ditas tenham n'Ele a sua fonte e n'Ele atinjam a plenitude” (Gaudium et Spes, 22).

Novidade no ensino do Papa?
Claro que não, e é isso que nos dá segurança ao acolhê-lo e dar-lhe seguimento, evitando, naturalmente, a lavagem ao cérebro que tentam aplicar-nos os semeadores de confusão que abundam por aí.
Esses, se nos não acautelamos, farão com que não fiquemos senão com o que eles desejariam que o Papa dissesse, e não com o que ele de facto disse.

E também é verdade que, neste mesmo número da sua Exortação Apostólica, o Papa recorda o que já o próprio Cristo disse aos seus discípulos: Porque, se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o comunicar aos outros?
Nas palavras de Jesus: Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça (Mt 10,8).



terça-feira, 26 de novembro de 2013


Pediram-me há dias que escrevesse aqui com mais frequência. 
Sobram os temas, mas falta o tempo. Além disso, como não têm aparecido comentários, convenço-me de que os meus textos não despertam interesse. Em todo o caso, o dia em que todos os meios de comunicação social badalaram sobre a chamada violência doméstica, que, na boca dessa gente, é apenas a violência contra as mulheres - já agora seria bom distinguir entre "violência contra as mulheres" e "violência contra a mulher" -, despertou  em mim uma série de reflexões que, dado o seu aspecto crepuscular, talvez venham a aparecer aqui.
Enquanto isso não chega, ofereço a quem me queira ler a página de homenagem aos meus pais publicada no facebook, por ocasião do aniversário do nascimento de minha mãe.
Começo pela citação de um autor francês da actualidade:

“On ne peut pas, par exemple, avoir un même discours sur les femmes indépendament des conditions sociales dans lesquelles elles vivent à travers le monde, parce que les mots n’ont pas le même sens, parce que les problèmes peuvent se retourner très aisément” (Arouet, 332).

O contexto destas palavras do bispo de Poitiers, que neste momento da entrevista se ocupa das relações do cristão com a moral e do cuidado que devemos ter ao falarmos de temas ditos fracturantes, é muito mais vasto do que a problemática da situação da mulher na sociedade. Trata-se de um aviso sobretudo aos ideólogos, que tradicionalmente travam lutas violentas, cuja raiz está mais nos elementos do discurso do que propriamente nas ideias.

Eu, por exemplo, só muito tarde, depois de maiores contactos com a cultura, digamos, burguesa, me dei conta da existência de um discurso relativo à promoção da mulher que, confesso, pouco ou nada significava no mundo real em que nasci e fui criado.

Claro, as nossas estruturas mentais eram profundamente machistas; mas também esta palavra, dadas a conotações que depois lhe conheci, não serve para definir o que se passava na nossa mente em relação à mulher: apesar de trabalhar sempre ao lado do homem, como acontece em qualquer sociedade rural, ela era fundamentalmente um ser frágil, muitas vezes à beira das lágrimas, sem força muscular, mas de uma resistência moral quase provocatória; e sentíamo-la tão essencial ao nosso bem-estar individual e colectivo, que víamos perfeitamente não poder prescindir dela.  
Recordo-me de um dia, ainda adolescente, ter ouvido alguém que se perguntava: porque será que as anedotas são quase todas contra as mulheres e os padres?
Ficou-me na mente a frase, sem o rosto de quem a pronunciou; mas suspeito de que tivesse origem feminina, até pela memória que conservo do tom: espanto e censura.

Talvez se trate de uma estatística aleatória, criada a partir de elementos pouco seguros; eu diria que se algo tem de objectivo, ela é própria de um meio especialmente marcado pela prática religiosa.
Mas não deixa de ser sintomática esta aproximação do padre e da mulher na temática das anedotas, que são, na sua maioria, narrações tipicamente masculinas.
Todos sabemos que a literatura disfémica não nasce propriamente do desejo de dizer mal para destruir. Li um dia num comentador de Hesíodo que os homens manifestam muitas vezes a sua admiração pela mulher com anedotas que só aparentemente vão contra elas. Tratar-se-ia de uma espécie de instinto de defesa. Quando se admira alguém, é fácil passar da admiração ao temor; e este traduz-se numa gama interminável de gestos, que podem ir da brincadeira inofensiva à mais cruel violência.
E aqui está outra coisa que eu nunca fui capaz de entender: aquilo que hoje se designa, talvez de forma demasiado estereotipada, por violência doméstica.

Não duvido de que esta minha visão da mulher tem muito a ver com o que acontecia na minha aldeia: mas ela deve-se sobretudo ao ambiente da família em que nasci e fui criado: chegámos a ser nove naquela casa. Pequena, pobre, mas limpa e arrumada; chegámos a ser nove, com dois terços de homens, que, pelo menos quanto ao que guardo na memória, nunca se sentiram apoiados por qualquer estatuto de superioridade… nem sequer quanto às tarefas domésticas: varrer a casa, lavar a loiça, fazer com que tudo estivesse no seu lugar para facilitar o trabalho, era missão de todos. Havia cisas reservadas aos mais novos, que as executavam à vez, para que não se criasse nenhuma espécie de favoritismo.
Pensando bem, dou-me conta de que tudo isto era obra da dona da casa, a Mãe, que a governava de forma tão discreta, que nem precisávamos da sua presença física, que faltava muitas vezes. De facto, a nossa Mãe gostava de ir ao mercado, às feiras e às festas religiosas, desde que, dizia ela, pudesse, pelo menos ouvir o sermão e participar na procissão, que, diga-se, para esclarecer as coisas, na freguesia, naquele tempo, terminava sempre com a bênção do Santíssimo.

Mãe!
Que grande mulher, que nos ensinou a ser homens, inteiramente homens, até no modo de encarar a mulher, que no seio da nossa família, enquanto não vieram as noras e as netas, sempre esteve em minoria.
Se fosse viva, faria hoje cento e doze anos: era um ano mais nova que o Pai.

A minha homenagem, aos dois, como fiz no dia em que ele completaria cento e treze, tem muito a ver com as palavras de Mons Arouet, não tanto pelo seu conteúdo, como sobretudo pelo que me recordam sobre a injustiça dos lugares comuns e do vedetismo que se cultiva nos meios de comunicação social, relativamente a valores que a gerações que nos precederam abraçaram com uma generosidade muito próxima do heroísmo, e alguns pregoeiros da nossa praça pretendem ter descoberto na última curva da estrada.
E quem dera que isto acontecesse apenas com a problemática ligada à condição feminina.
Aliás, ainda relativamente a este ponto, no ocidente europeu, alguém se tem preocupado a sério em estudar as raízes daquilo que alguns combatem de forma tão violenta?

E depois, será que, por exemplo, nos países de religião muçulmana e cultura de influência árabe, se está a lutar pela promoção da mulher ou antes pela sua ocidentalização, precisamente naquilo que o ocidente tem de pior? Não será isto promover um certo radicalismo que nem o Alcorão advoga?

Como nos faria bem cultivar mais a virtude da humildade!

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O pecado original

A expressão “pecado original”, não tem aqui significado teológico: de facto, ela usa-se correntemente em português para designar qualquer erro que pode considerar-se como raiz de outros males; é nesse sentido que se toma aqui.
 Embora nos situemos na narração das origens contida num texto que os crentes consideram escrito com uma especial assistência do Espírito Santo, falamos de erro e não de pecado, para nos não perdermos em considerações de ordem moral.
Ainda que não seja fácil prescindir da presença de uma teologia em textos inspirados, gostaríamos de pôr em realce sobretudo a sua antropologia.
Aliás, já na expressão “textos inspirados” é necessário distinguir o texto e a inspiração propriamente dita, que, como assistência divina, não limita nem condiciona, senão de forma indirecta, a produção do texto: nesta é imprescindível ter em conta a cultura e a arte do autor humano.
Reparemos, pois, na “fabula”, evitando o mais possível partir da fé; o que seria, em certo sentido, para empregar uma expressão popular, pôr o carro à frente dos bois.
Dizemos, “o mais possível”, porque o redactor final do texto foi evidentemente guiado pela fé, e nós só podemos tentar descobrir a antropologia em que encarna essa fé: Assim como quem, diante de uma bela catedral gótica, procura identificar a arte que pôs as pedras ao serviço de uma comunidade crente, que reza e evangeliza, evangelizando-se a si própria.

Unimos os capítulos segundo e terceiro numa única estrutura narrativa: nela, vai-se do deserto estéril que era o mundo sem a presença do homem, à tragédia do deserto em que se transforma o mesmo homem, por um erro capital que comete no interior desse mundo, depois de o ter experimentado como um jardim de delícias.
Jardim de delícias que atinge a máxima excelência quando o homem se descobre capaz de diálogo com alguém que, apesar de igual a ele, é totalmente outro. E desse outro dependente, para esse outro existente, como dom e donatário. O que significa a descoberta de uma capacidade de comunhão interpessoal, que não é possível a nível das criaturas, senão entre duas pessoas livres, radicalmente iguais, mas irremediavelmente diferentes: a estas duas pessoas, que na economia narrativa do texto constituem uma para outra dom e donatário, dá-se, no português actual, o nome de homem e mulher.
Mas a poesia do mesmo texto apresenta-nos o homem como a coroa da criação – sem ele o mundo é um deserto estéril - e a mulher, a joia da coroa – sem ela o homem é um eterno solitário, vagando nesse deserto em busca de uma comunhão impossível.

O drama começa quando coroa e joia se esquecem de que perdem sentido sem a cabeça que as sustém:
Sem a cabeça, é de esperar que aqueles que eram simultaneamente dom e donatário um para o outro abandonem essa perspectiva; e, passando pela ideia de que são dom um do outro, rapidamente chegam à loucura de que são proprietário um do outro.
Na construção poética do capítulo terceiro do Génesis, o cúmulo da desordem está em que as criaturas mais excelentes se deixam seduzir pelas inferiores: a serpente, apesar da sua astúcia, não deixa de ser um animal rastejante.
Dir-se-ia que a criação inteira, que, segundo o texto sagrado, o próprio Deus, depois de ter criado o homem e a mulher, achou que era muito boa, entrava assim numa trágica espiral de iniquidade, tão grave e tão profunda, que o melhor seria destruí-la imediatamente.
É aqui que não podemos prescindir da fé que inspirou o texto:

O cardeal Ratzinger afirmou um dia que, depois do pecado, Deus não tinha alternativa: ou destruía a criação ou Se fazia Ele próprio criatura. E talvez seja bom recordar que, este mesmo cardeal, já como sucessor de Pedro na sé de Roma, afirmou que sem Deus, o homem não constrói o paraíso, mas o inferno.

De facto, Deus não destrói a criação: vem à procura do homem, que não priva de nenhuma das suas prerrogativas como coroa e joia da coroa da criação e ao qual oferece os meios necessários à realização do seu destino último, tornado agora mais difícil, como resultado da cedência à tentação de se considerar senhor do que não lhe é concedido senão como dom e tarefa.

Fica o aviso solene, que os capítulos seguintes do livro sagrado ilustram com exemplos chocantes:
Esquecido da sua dimensão vertical, sem a referência objectiva da lei divina, o homem não só é capaz, mas comete muitas vezes as maiores arbitrariedades, os piores e inimagináveis crimes.
E contra isto não têm força as leis, que, aliás são tanto mais numerosas, acerca de tudo e de todos, quanto menos a sociedade conta com o legislador supremo, que é Deus.

Sem querer contestar nada do que diz a fé sobre o erro das origens, no seu significado teológico, chamei pecado original ao gesto com que o homem – o homem e a mulher – tentam, desde o início, apoderar-se das criaturas, pondo de lado o Criador.
Metáfora e cristalização desta desordem é o envenenamento das relações marido/ mulher, com as categorias kantianas dos direitos e deveres, que começam quando, na dinâmica do amor, se substitui a beleza da sedução pela crueldade da conquista.
Afinal, todos sabemos que onde há amor não faz sentido falar-se de conquista.




sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O Sínodo do Diabo

Ouvi um dia a um professor de História da Igreja, esta afirmação que, embora me tenha chocado, verifiquei depois, pelos exemplos apresentados, ser verdadeira:
Em todos os grandes concílios, sobretudo nos tempos modernos – ele falava de Trento e suas sequelas – podem distinguir-se sempre três concílios: o do Diabo, o dos Padres e o do Espírito Santo. Por esta ordem no que se refere ao impacto na opinião pública: primeiro o ruído quase ensurdecedor do Diabo, depois o murmúrio dos Padres e por fim o Espírito Santo, prolongando a sua acção ao longo da história, ajudando os crentes a tirar das decisões conciliares um fruto que necessariamente as ultrapassará.
Esta teoria, que me pareceu razoável, serviu-me, passados poucos anos, para entender a Igreja e o mundo, nas vésperas, durante e depois do II Concílio do Vaticano.

O mesmo professor tinha outra teoria, perfeitamente confirmada pelos factos:
Quando um concílio é convocado na perspectiva da restauração, da fixação de princípios que evitem a transformação da reforma em revolução desidentificadora, passe o neologismo, os principais desvios vão no sentido de fechar portas e janelas, como se qualquer arejamento do edifício fosse nocivo: aqui, os movimentos ultraconservadores, presumindo estar com o concílio, acabam por criar dele uma imagem de consequências que só a acção vigilante da Igreja, guiada pelo Espírito Santo, evitará que sejam mais negativas.

Isto vi-o confirmado por ocasião do Vaticano II, ainda que, neste caso, dados os objectivos que se propôs a Igreja, ao convoca-lo, a dinâmica das portas e janelas tenha funcionado ao contrário, com movimentos ultrarrevolucionários, sempre falando em nome do concílio, a exigirem outro tipo de acção vigilante por parte da Igreja.
Digamos que é a continuidade do concílio do Espírito Santo.

E tudo isto vem a propósito de quê?
Há dias que todos ou quase todos os órgãos de comunicação social nos massacram com referências ao próximo Sínodo Extraordinário dos Bispos, insistindo na novidade de um suposto inquérito ordenado pelo Papa sobre “temas polémicos na Igreja Católica”, para utilizar a linguagem de um dos nossos canais televisivos. E abundam os comentadores: parece que toda a gente está suficientemente esclarecida para fornecer ao Papa os dados que ele pede, com grande sentido pastoral e humildade, por intermédio dos responsáveis das Igrejas locais, que são os bispos.

E agora até há um operador da Internet que decide fazer um inquérito!
É um festival de assaltos à credulidade das gentes.
O trágico está em que as perguntas atribuídas ao Papa, mesmo tiradas do seu contexto, não são as do documento oficial, pelo menos no sentido que, desde a primeira hora, se lhes deu e se tem comentado.

Não escrevo isto para entrar na discussão: desejava apenas alertar os incautos para os efeitos negativos de todo este ruído, que me faz lembrar o que dizia o meu professor sobre os três concílios: o mais barulhento e também mais persistente, seria o do Diabo. O mais importante e consequentemente mais silencioso, é o do Espírito Santo, que só actuará sobre os corações abertos às suas luzes e à força da Graça.

Não me parece de todo errado aplicar as teorias do meu mestre ao actual momento da Igreja: por isso me atrevo a dizer que está já em curso o Sínodo do Diabo.
Por mim, acho que devo preparar-me para que o Espírito Santo frutifique, na medida da misericórdia e da graça divinas, o Sínodo dos Bispos.
Assim, tomo como mais urgente a oração: pedir a Deus que a sua preparação – já em curso – e a sua realização – no próximo ano - não seja demasiado perturbada por aquilo a que chamei o Sínodo do Diabo.






















domingo, 6 de outubro de 2013



Pontes ou bocas de abismo?

É apenas um convite a quem me ler, para meditar um pouco sobre duas travessias, nas quais, em qualquer dos casos, mesmo se por motivos aparentemente diferentes, se fugia de, correndo para. E trágico é que tanto num caso como no outro, sem que se tenha chegado ao destino, deixou-se incólume tudo quanto se relacionava com o ponto de partida.
Isto, apesar dos rios de “lágrima de crocodilo”, que, na mente de quem pensa um pouco, não fazem mais do que aumentar o sentimento de vergonha, que, para não ceder demasiado ao pessimismo, é de pouca gente.
Veio-me à ideia a tragédia da ponte das barcas, no Porto, naquele fatídico dia 29 de Março de 1809. E isso, não propriamente para pedir de novo a condenação dos responsáveis por todas aquelas mortes, mas sobretudo para vermos como se destrói a humanidade quando não são as pessoas que interessam, mas as ambições mesquinhas dos detentores do poder, seja ele económico, político ou militar… e quantas vezes também religioso.
Na Antiguidade, apesar dos pesares, como diria um homem de Deus dos nossos dias, tanto os rios como os mares, serviam de ligação entre os povos; hoje os povos sentem-se esmagados pelo uso que desses espaços faz a tecnologia ao serviço das ambições referidas.
E assim como me comove o grito do Papa que fala de uma vergonha, revolta-me a expressão daquele chefe de estado, se referiu à tragédia de Lampedusa como "um massacre de inocentes". Não porque isso não seja verdade; mas porque ele, como tantos chefes de estado desta triste Europa, se cala sistematicamente perante os outros massacres de inocentes, que, bem vistas as coisas, têm a mesma raiz.


sábado, 5 de outubro de 2013

As fronteiras da vergonha


De repente, não sei bem porquê, veio-me à mente a parábola do rico avarento e do pobre Lázaro, maravilhoso texto do evangelista da misericórdia divina, que recolhe a resposta de Jesus aos que o censuravam pelo carinho que mostrava pelos mais débeis, e não há maior debilidade que a provocada pelo pecado. Resposta que é também um aviso solene aos Seus discípulos, não vão eles pensar que alguém será excluído do Reino, por razões que não tenham a ver coma rejeição dessa misericórdia.  
São já muitos milhares os que morrem à porta do palácio onde se banqueteiam os ricos, que, quanto mais ricos, mais medo têm de quem possa vir incomodar o seu festim esbanjador.
Por isso, assim como deixam morrer à porta os pobres que vêm de longe – clandestinamente, porque os não deixam viajar com a dignidade a que têm direito – matam, antes que possam gritar, os que, com igual direito, querem sentar-se à mesa da família: e estes não são apenas alguns milhares, são milhões, todos os anos.
Nos países ricos, pasme-se!
Porque os pobres sempre conseguem partilhar uma migalha de pão, quando não acontece que os ricos até essa migalha lhes negam.

O Papa, perante a tragédia de Lampedusa, gritou, num tom que me comoveu: É uma vergonha!
Uma vergonha que quase ninguém terá assumido como sua.
Por isso senti uma dor parecida com a que experimentei quando vi Bento XVI chorar diante das vítimas da pedofilia.
E também nessa altura fiquei a pensar se terá havido muita gente a sentir que, afinal, todos tínhamos razão para chorar.
Chorar, não só porque se trata de uma enorme tristeza, mas porque todos somos, de uma maneira ou de outra, responsáveis por este mundo.

É uma vergonha, diz o Papa.
E eu, convencido de que o âmbito dessa vergonha sai muito do mar de Lampedusa, acrescento: é verdadeiramente uma vergonha tudo o que se está a passar nesta zona do globo, que acumula grande parte da riqueza material que Deus quis para todos, mas que perdeu o rumo, porque ficou sem os valores que fizeram a sua grandeza.