O
Sínodo do Diabo
Ouvi um dia a
um professor de História da Igreja, esta afirmação que, embora me tenha
chocado, verifiquei depois, pelos exemplos apresentados, ser verdadeira:
Em todos os
grandes concílios, sobretudo nos tempos modernos – ele falava de Trento e suas
sequelas – podem distinguir-se sempre três concílios: o do Diabo, o dos Padres
e o do Espírito Santo. Por esta ordem no que se refere ao impacto na opinião
pública: primeiro o ruído quase ensurdecedor do Diabo, depois o murmúrio dos
Padres e por fim o Espírito Santo, prolongando a sua acção ao longo da
história, ajudando os crentes a tirar das decisões conciliares um fruto que
necessariamente as ultrapassará.
Esta teoria,
que me pareceu razoável, serviu-me, passados poucos anos, para entender a
Igreja e o mundo, nas vésperas, durante e depois do II Concílio do Vaticano.
O mesmo professor
tinha outra teoria, perfeitamente confirmada pelos factos:
Quando um
concílio é convocado na perspectiva da restauração, da fixação de princípios
que evitem a transformação da reforma em revolução desidentificadora, passe o
neologismo, os principais desvios vão no sentido de fechar portas e janelas,
como se qualquer arejamento do edifício fosse nocivo: aqui, os movimentos ultraconservadores,
presumindo estar com o concílio, acabam por criar dele uma imagem de
consequências que só a acção vigilante da Igreja, guiada pelo Espírito Santo,
evitará que sejam mais negativas.
Isto vi-o
confirmado por ocasião do Vaticano II, ainda que, neste caso, dados os
objectivos que se propôs a Igreja, ao convoca-lo, a dinâmica das portas e
janelas tenha funcionado ao contrário, com movimentos ultrarrevolucionários,
sempre falando em nome do concílio, a exigirem outro tipo de acção vigilante
por parte da Igreja.
Digamos que é a
continuidade do concílio do Espírito Santo.
E tudo isto vem
a propósito de quê?
Há dias que
todos ou quase todos os órgãos de comunicação social nos massacram com
referências ao próximo Sínodo Extraordinário dos Bispos, insistindo na novidade
de um suposto inquérito ordenado pelo Papa sobre “temas polémicos na Igreja
Católica”, para utilizar a linguagem de um dos nossos canais televisivos. E
abundam os comentadores: parece que toda a gente está suficientemente
esclarecida para fornecer ao Papa os dados que ele pede, com grande sentido
pastoral e humildade, por intermédio dos responsáveis das Igrejas locais, que
são os bispos.
E agora até há
um operador da Internet que decide fazer um inquérito!
É um festival
de assaltos à credulidade das gentes.
O trágico está
em que as perguntas atribuídas ao Papa, mesmo tiradas do seu contexto, não são
as do documento oficial, pelo menos no sentido que, desde a primeira hora, se
lhes deu e se tem comentado.
Não escrevo
isto para entrar na discussão: desejava apenas alertar os incautos para os
efeitos negativos de todo este ruído, que me faz lembrar o que dizia o meu
professor sobre os três concílios: o mais barulhento e também mais persistente,
seria o do Diabo. O mais importante e consequentemente mais silencioso, é o do
Espírito Santo, que só actuará sobre os corações abertos às suas luzes e à
força da Graça.
Não me parece
de todo errado aplicar as teorias do meu mestre ao actual momento da Igreja:
por isso me atrevo a dizer que está já em curso o Sínodo do Diabo.
Por mim, acho
que devo preparar-me para que o Espírito Santo frutifique, na medida da
misericórdia e da graça divinas, o Sínodo dos Bispos.
Assim, tomo
como mais urgente a oração: pedir a Deus que a sua preparação – já em curso – e
a sua realização – no próximo ano - não seja demasiado perturbada por aquilo a
que chamei o Sínodo do Diabo.
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