O pecado original
A expressão “pecado original”, não tem aqui significado
teológico: de facto, ela usa-se correntemente em português para designar
qualquer erro que pode considerar-se como raiz de outros males; é nesse sentido
que se toma aqui.
Embora nos situemos
na narração das origens contida num texto que os crentes consideram escrito com
uma especial assistência do Espírito Santo, falamos de erro e não de pecado,
para nos não perdermos em considerações de ordem moral.
Ainda que não seja fácil prescindir da presença de uma
teologia em textos inspirados, gostaríamos de pôr em realce sobretudo a sua
antropologia.
Aliás, já na expressão “textos inspirados” é necessário
distinguir o texto e a inspiração propriamente dita, que, como assistência
divina, não limita nem condiciona, senão de forma indirecta, a produção do
texto: nesta é imprescindível ter em conta a cultura e a arte do autor humano.
Reparemos, pois, na “fabula”, evitando o mais possível
partir da fé; o que seria, em certo sentido, para empregar uma expressão
popular, pôr o carro à frente dos bois.
Dizemos, “o mais possível”, porque o redactor final do texto
foi evidentemente guiado pela fé, e nós só podemos tentar descobrir a
antropologia em que encarna essa fé: Assim como quem, diante de uma bela
catedral gótica, procura identificar a arte que pôs as pedras ao serviço de uma
comunidade crente, que reza e evangeliza, evangelizando-se a si própria.
Unimos os capítulos segundo e terceiro numa única estrutura
narrativa: nela, vai-se do deserto estéril que era o mundo sem a presença do
homem, à tragédia do deserto em que se transforma o mesmo homem, por um erro
capital que comete no interior desse mundo, depois de o ter experimentado como
um jardim de delícias.
Jardim de delícias que atinge a máxima excelência quando o
homem se descobre capaz de diálogo com alguém que, apesar de igual a ele, é
totalmente outro. E desse outro dependente, para esse outro existente, como dom
e donatário. O que significa a descoberta de uma capacidade de comunhão interpessoal,
que não é possível a nível das criaturas, senão entre duas pessoas livres,
radicalmente iguais, mas irremediavelmente diferentes: a estas duas pessoas,
que na economia narrativa do texto constituem uma para outra dom e donatário,
dá-se, no português actual, o nome de homem e mulher.
Mas a poesia do mesmo texto apresenta-nos o homem como a
coroa da criação – sem ele o mundo é um deserto estéril - e a mulher, a joia da
coroa – sem ela o homem é um eterno solitário, vagando nesse deserto em busca
de uma comunhão impossível.
O drama começa quando coroa e joia se esquecem de que perdem
sentido sem a cabeça que as sustém:
Sem a cabeça, é de esperar que aqueles que eram
simultaneamente dom e donatário um para o outro abandonem essa perspectiva; e,
passando pela ideia de que são dom um do outro, rapidamente chegam à loucura de
que são proprietário um do outro.
Na construção poética do capítulo terceiro do Génesis, o
cúmulo da desordem está em que as criaturas mais excelentes se deixam seduzir
pelas inferiores: a serpente, apesar da sua astúcia, não deixa de ser um animal
rastejante.
Dir-se-ia que a criação inteira, que, segundo o texto
sagrado, o próprio Deus, depois de ter criado o homem e a mulher, achou que era
muito boa, entrava assim numa trágica espiral de iniquidade, tão grave e tão
profunda, que o melhor seria destruí-la imediatamente.
É aqui que não podemos prescindir da fé que inspirou o texto:
O cardeal Ratzinger afirmou um dia que, depois do pecado,
Deus não tinha alternativa: ou destruía a criação ou Se fazia Ele próprio
criatura. E talvez seja bom recordar que, este mesmo cardeal, já como sucessor
de Pedro na sé de Roma, afirmou que sem Deus, o homem não constrói o paraíso,
mas o inferno.
De facto, Deus não destrói a criação: vem à procura do
homem, que não priva de nenhuma das suas prerrogativas como coroa e joia da
coroa da criação e ao qual oferece os meios necessários à realização do seu
destino último, tornado agora mais difícil, como resultado da cedência à
tentação de se considerar senhor do que não lhe é concedido senão como dom e
tarefa.
Fica o aviso solene, que os capítulos seguintes do livro
sagrado ilustram com exemplos chocantes:
Esquecido da sua dimensão vertical, sem a referência
objectiva da lei divina, o homem não só é capaz, mas comete muitas vezes as
maiores arbitrariedades, os piores e inimagináveis crimes.
E contra isto não têm força as leis, que, aliás são tanto
mais numerosas, acerca de tudo e de todos, quanto menos a sociedade conta com o
legislador supremo, que é Deus.
Sem querer contestar nada do que diz a fé sobre o erro das
origens, no seu significado teológico, chamei pecado original ao gesto com que
o homem – o homem e a mulher – tentam, desde o início, apoderar-se das
criaturas, pondo de lado o Criador.
Metáfora e cristalização desta desordem é o envenenamento
das relações marido/ mulher, com as categorias kantianas dos direitos e deveres,
que começam quando, na dinâmica do amor, se substitui a beleza da sedução pela
crueldade da conquista.
Afinal, todos sabemos que onde há amor não faz sentido
falar-se de conquista.
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