terça-feira, 26 de novembro de 2013


Pediram-me há dias que escrevesse aqui com mais frequência. 
Sobram os temas, mas falta o tempo. Além disso, como não têm aparecido comentários, convenço-me de que os meus textos não despertam interesse. Em todo o caso, o dia em que todos os meios de comunicação social badalaram sobre a chamada violência doméstica, que, na boca dessa gente, é apenas a violência contra as mulheres - já agora seria bom distinguir entre "violência contra as mulheres" e "violência contra a mulher" -, despertou  em mim uma série de reflexões que, dado o seu aspecto crepuscular, talvez venham a aparecer aqui.
Enquanto isso não chega, ofereço a quem me queira ler a página de homenagem aos meus pais publicada no facebook, por ocasião do aniversário do nascimento de minha mãe.
Começo pela citação de um autor francês da actualidade:

“On ne peut pas, par exemple, avoir un même discours sur les femmes indépendament des conditions sociales dans lesquelles elles vivent à travers le monde, parce que les mots n’ont pas le même sens, parce que les problèmes peuvent se retourner très aisément” (Arouet, 332).

O contexto destas palavras do bispo de Poitiers, que neste momento da entrevista se ocupa das relações do cristão com a moral e do cuidado que devemos ter ao falarmos de temas ditos fracturantes, é muito mais vasto do que a problemática da situação da mulher na sociedade. Trata-se de um aviso sobretudo aos ideólogos, que tradicionalmente travam lutas violentas, cuja raiz está mais nos elementos do discurso do que propriamente nas ideias.

Eu, por exemplo, só muito tarde, depois de maiores contactos com a cultura, digamos, burguesa, me dei conta da existência de um discurso relativo à promoção da mulher que, confesso, pouco ou nada significava no mundo real em que nasci e fui criado.

Claro, as nossas estruturas mentais eram profundamente machistas; mas também esta palavra, dadas a conotações que depois lhe conheci, não serve para definir o que se passava na nossa mente em relação à mulher: apesar de trabalhar sempre ao lado do homem, como acontece em qualquer sociedade rural, ela era fundamentalmente um ser frágil, muitas vezes à beira das lágrimas, sem força muscular, mas de uma resistência moral quase provocatória; e sentíamo-la tão essencial ao nosso bem-estar individual e colectivo, que víamos perfeitamente não poder prescindir dela.  
Recordo-me de um dia, ainda adolescente, ter ouvido alguém que se perguntava: porque será que as anedotas são quase todas contra as mulheres e os padres?
Ficou-me na mente a frase, sem o rosto de quem a pronunciou; mas suspeito de que tivesse origem feminina, até pela memória que conservo do tom: espanto e censura.

Talvez se trate de uma estatística aleatória, criada a partir de elementos pouco seguros; eu diria que se algo tem de objectivo, ela é própria de um meio especialmente marcado pela prática religiosa.
Mas não deixa de ser sintomática esta aproximação do padre e da mulher na temática das anedotas, que são, na sua maioria, narrações tipicamente masculinas.
Todos sabemos que a literatura disfémica não nasce propriamente do desejo de dizer mal para destruir. Li um dia num comentador de Hesíodo que os homens manifestam muitas vezes a sua admiração pela mulher com anedotas que só aparentemente vão contra elas. Tratar-se-ia de uma espécie de instinto de defesa. Quando se admira alguém, é fácil passar da admiração ao temor; e este traduz-se numa gama interminável de gestos, que podem ir da brincadeira inofensiva à mais cruel violência.
E aqui está outra coisa que eu nunca fui capaz de entender: aquilo que hoje se designa, talvez de forma demasiado estereotipada, por violência doméstica.

Não duvido de que esta minha visão da mulher tem muito a ver com o que acontecia na minha aldeia: mas ela deve-se sobretudo ao ambiente da família em que nasci e fui criado: chegámos a ser nove naquela casa. Pequena, pobre, mas limpa e arrumada; chegámos a ser nove, com dois terços de homens, que, pelo menos quanto ao que guardo na memória, nunca se sentiram apoiados por qualquer estatuto de superioridade… nem sequer quanto às tarefas domésticas: varrer a casa, lavar a loiça, fazer com que tudo estivesse no seu lugar para facilitar o trabalho, era missão de todos. Havia cisas reservadas aos mais novos, que as executavam à vez, para que não se criasse nenhuma espécie de favoritismo.
Pensando bem, dou-me conta de que tudo isto era obra da dona da casa, a Mãe, que a governava de forma tão discreta, que nem precisávamos da sua presença física, que faltava muitas vezes. De facto, a nossa Mãe gostava de ir ao mercado, às feiras e às festas religiosas, desde que, dizia ela, pudesse, pelo menos ouvir o sermão e participar na procissão, que, diga-se, para esclarecer as coisas, na freguesia, naquele tempo, terminava sempre com a bênção do Santíssimo.

Mãe!
Que grande mulher, que nos ensinou a ser homens, inteiramente homens, até no modo de encarar a mulher, que no seio da nossa família, enquanto não vieram as noras e as netas, sempre esteve em minoria.
Se fosse viva, faria hoje cento e doze anos: era um ano mais nova que o Pai.

A minha homenagem, aos dois, como fiz no dia em que ele completaria cento e treze, tem muito a ver com as palavras de Mons Arouet, não tanto pelo seu conteúdo, como sobretudo pelo que me recordam sobre a injustiça dos lugares comuns e do vedetismo que se cultiva nos meios de comunicação social, relativamente a valores que a gerações que nos precederam abraçaram com uma generosidade muito próxima do heroísmo, e alguns pregoeiros da nossa praça pretendem ter descoberto na última curva da estrada.
E quem dera que isto acontecesse apenas com a problemática ligada à condição feminina.
Aliás, ainda relativamente a este ponto, no ocidente europeu, alguém se tem preocupado a sério em estudar as raízes daquilo que alguns combatem de forma tão violenta?

E depois, será que, por exemplo, nos países de religião muçulmana e cultura de influência árabe, se está a lutar pela promoção da mulher ou antes pela sua ocidentalização, precisamente naquilo que o ocidente tem de pior? Não será isto promover um certo radicalismo que nem o Alcorão advoga?

Como nos faria bem cultivar mais a virtude da humildade!

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