EVANGELII GAUDIUM
REFLEXÕES SOLTAS
Sem
ter a pretensão de ensinar seja o que for a quem quer que seja, pensei que
podia oferecer a quem me queira ler e comentar algumas reflexões soltas sobre a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium.
1: O homem é mais do que o homem
É somente graças a este encontro – ou
reencontro – com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, que somos
resgatados da nossa consciência isolada e do egocentrismo. Tornamo-nos
plenamente humanos, quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus
que nos conduza para além de nós mesmos, a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro.
Aqui está a fonte da acção evangelizadora. Porque, se alguém acolheu este amor
que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o
comunicar aos outros?(EG,8)
Começo
por adaptar, não propriamente o texto, que aparece sem que nos dêem o original
oficial, marca mais negativa do que se poderia pensar. Não adapto o texto, mas
a versão portuguesa, que não me parece ter a dignidade dos ensinamentos do
Papa:
“Auto-referencialidade”,
em meu entender, termo decalcado, mais do que traduzido, é um neologismo
escusado: no fundo, o que o Papa quer dizer fica suficientemente expresso com o
nosso “egocentrismo”.
“Chegamos
a ser completamente humanos”, é um decalque claro, talvez sobre o castelhano.
Mas o Papa não fala propriamente de uma viagem, a não ser em sentido
metafórico, e isso dir-se-ia, em português correcto, de outro modo.
Aqui
trata-se essencialmente de uma transformação interior que, no contexto da
doutrina pontifícia, é mais resultado de um acolhimento do que de uma luta, uma
caminhada.
Aliás,
vai sendo tempo de reduzirmos na nossa mente o espaço dado ao conceito de luta,
conquista, que associamos a tudo o que se relaciona com a fé.
Neste
campo, parece que o conceito fundamental é o acolhimento: acolhimento de Deus e
daqueles que Ele ama.
Na
fé, em qualquer dos casos, é sempre Deus que toma a iniciativa: parafraseando
um autor francês contemporâneo, antes de acreditarmos em Deus, é Ele que
acredita em nós.
Será
o que o Papa exprime com a ideia de encontro:
É somente graças
a este encontro – ou reencontro – com o amor de Deus, que se converte em
amizade feliz, que somos resgatados da nossa consciência isolada e do
egocentrismo.
Isolado
e centrado em si mesmo, tomando-se como referência fundamental dos valores que o
orientam, o homem não tem saída, nem teórica nem prática, para aquilo que o
atormenta.
Podemos
dizer a que as interrogações do homem sobre si próprio são tão antigas como o
próprio pensamento: desde a mais remota antiguidade que a filosofia e a arte
não se cansam de pôr em realce este mistério, que, de facto não encontra
resposta nas categorias intramundanas.
Pascal,
que neste capítulo repete Eusébio de Cesareia, diz que “o homem ultrapassa
infinitamente o homem”, e é partindo daqui que Mgr
Albert Arouet, ao apontar algumas das ideologias que têm feito a infelicidade
da Europa dos últimos séculos, diz, com toda a propriedade: “Porque o homem que
quer definir o homem está sempre a ponto de o limitar. A fé diz-nos que é Deus,
o Ilimitado, que vem, não definir, mas pôr o homem perante um horizonte sem
limites”.
É
outra maneira de expressar o que diz o Vaticano II, num documento que, lido na
sua globalidade – coisa que talvez nunca tenha sido realizada devidamente – se
conserva plenamente actual:
“Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo
encarnado se esclarece verdadeiramente. Adão, o primeiro homem, era
efectivamente figura do futuro, isto é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na
própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e
descobre-lhe a sua vocação sublime. Não é por isso de admirar que as verdades
acima ditas tenham n'Ele a sua fonte e n'Ele atinjam a plenitude” (Gaudium et Spes, 22).
Novidade no ensino do Papa?
Claro que não, e é isso que nos dá segurança ao acolhê-lo e
dar-lhe seguimento, evitando, naturalmente, a lavagem ao cérebro que tentam
aplicar-nos os semeadores de confusão que abundam por aí.
Esses, se nos não acautelamos, farão com que não fiquemos senão
com o que eles desejariam que o Papa dissesse, e não com o que ele de facto
disse.
E também é verdade que, neste mesmo número da sua Exortação
Apostólica, o Papa recorda o que já o próprio Cristo disse aos seus discípulos:
Porque, se alguém acolheu este amor que
lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o comunicar
aos outros?
Nas
palavras de Jesus: Curai os enfermos,
ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes
de graça, dai de graça (Mt 10,8).
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