Pontes ou bocas de abismo?
É apenas um convite a quem me ler, para meditar um pouco
sobre duas travessias, nas quais, em qualquer dos casos, mesmo se por motivos
aparentemente diferentes, se fugia de, correndo para. E trágico é que tanto num
caso como no outro, sem que se tenha chegado ao destino, deixou-se incólume tudo quanto se relacionava com o
ponto de partida.
Isto, apesar dos rios de “lágrima de crocodilo”, que, na
mente de quem pensa um pouco, não fazem mais do que aumentar o sentimento de
vergonha, que, para não ceder demasiado ao pessimismo, é de pouca gente.
Veio-me à ideia a tragédia da ponte das barcas, no Porto,
naquele fatídico dia 29 de Março de 1809. E isso, não propriamente para pedir
de novo a condenação dos responsáveis por todas aquelas mortes, mas sobretudo
para vermos como se destrói a humanidade quando não são as pessoas que
interessam, mas as ambições mesquinhas dos detentores do poder, seja ele
económico, político ou militar… e quantas vezes também religioso.
Na Antiguidade, apesar dos pesares, como diria um homem de Deus dos nossos dias, tanto os rios como os mares, serviam de ligação entre os povos; hoje os povos sentem-se esmagados pelo uso que desses espaços faz a tecnologia ao serviço das ambições referidas.
E assim como me comove o grito do Papa que fala de uma vergonha, revolta-me a expressão daquele chefe de estado, se referiu à tragédia de Lampedusa como "um massacre de inocentes". Não porque isso não seja verdade; mas porque ele, como tantos chefes de estado desta triste Europa, se cala sistematicamente perante os outros massacres de inocentes, que, bem vistas as coisas, têm a mesma raiz.
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