quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Diálogo impossível?

A palavra diálogo foi desenvolvida de modo especial nos meados do século passado, sobretudo por acção do que se chamou euro - comunismo – teses doutrinais de Gramsci, na Itália, e Garaudy, na França. Adoptada depois e introduzida em muitos textos de origem teológica e eclesiástica, a palavra foi de tal modo utilizada ao longo de toda a segunda metade do século XX, que quase poderíamos falar de uma ideologia do diálogo, com todas as implicações, positivas e negativas, que acompanham qualquer ideologia.
O pior é que com frequência se fala de diálogo onde talvez a expressão não tenha verdadeira coerência.
São inúmeros os casos. Hoje falamos apenas de um:

Ao terminar o Ano da Fé, qual o significado real do teimoso discurso sobre a necessidade do diálogo da Igreja com o mundo?
Um discurso tão teimoso, que tem criado inúmeros complexos – de inferioridade, por parte dos cristãos, de superioridade, por parte dos que gostam de dizer mal de nós – pululando por aí, em todos os meios de comunicação social, falada e escrita.

Não serão infundadas as suspeitas de que há aqui algum equívoco: ou não se tem uma noção correcta de Igreja, ou o mundo a que se faz referência não será propriamente aquele que o Senhor quer salvar.
Sim, porque este é uma realidade presente em todos nós; e, num certo sentido, nós não somos mais Igreja do que mundo.
Poderíamos até dizer que só somos Igreja na medida em que somos mundo: o mundo, o universo, aquilo a que os gregos chamaram, umas vezes “cosmos”, outras “aeuus”, e os romanos chamavam, segundo os contextos; “uniuersus” ou “saeculum”.
O que, apesar de tantos discursos equívocos, desde a mais remota antiguidade, inclui necessariamente o homem, que é a coroa da criação.
Assim, como amigos, colaboradores e ministros de Cristo – classificação que nos deixou o próprio São Paulo – não podemos, nem sequer por questões metodológicas, prescindir da nossa condição intramundana.
Diríamos antes que a salvação que Jesus nos confiou, enquanto Igreja, tem de penetrar a realidade que somos, enquanto mundo.
Aliás, como seríamos Igreja, se não fôssemos o mundo a que se destina a salvação.
Não se dará o caso de estarmos a lutar pelo impossível?
Porque, de facto, queremos dialogar como se não nos confundíssemos, num certo sentido, pelo menos, com o outro, o tremo desse diálogo.

Talvez os nossos discursos sobre o tal diálogo não estejam isentos de um certo dualismo que, ao longo dos séculos, sobretudo os últimos, tem feito muito mal ao mundo e à Igreja, a nós todos, por conseguinte.
E não vale a pena seleccionar os campos desta acção devastadora, porque ela atinge-os todos.
Como, no entanto, não podemos reflectir sobre todos eles ao mesmo tempo, vamos abordar alguns dos que nos parece mais urgente falar, porque a respeito deles, por várias razões, se multiplicam as ideias que, pelo menos aparentemente, têm como base esse dualismo.
Será por exemplo grande parte do que se diz acerca da família, a respeito da qual precisamente se fala a todo o momento, da necessidade de intensificar o diálogo da Igreja com o mundo.
Que Igreja?
E que mundo?


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