As fronteiras da vergonha
De repente, não sei bem porquê, veio-me à mente a parábola
do rico avarento e do pobre Lázaro, maravilhoso texto do evangelista da
misericórdia divina, que recolhe a resposta de Jesus aos que o censuravam pelo
carinho que mostrava pelos mais débeis, e não há maior debilidade que a
provocada pelo pecado. Resposta que é também um aviso solene aos Seus
discípulos, não vão eles pensar que alguém será excluído do Reino, por razões
que não tenham a ver coma rejeição dessa misericórdia.
São já muitos milhares os que morrem à porta do palácio onde
se banqueteiam os ricos, que, quanto mais ricos, mais medo têm de quem possa
vir incomodar o seu festim esbanjador.
Por isso, assim como deixam morrer à porta os pobres que vêm
de longe – clandestinamente, porque os não deixam viajar com a dignidade a que
têm direito – matam, antes que possam gritar, os que, com igual direito, querem
sentar-se à mesa da família: e estes não são apenas alguns milhares, são
milhões, todos os anos.
Nos países ricos, pasme-se!
Porque os pobres sempre conseguem partilhar uma migalha de
pão, quando não acontece que os ricos até essa migalha lhes negam.
O Papa, perante a tragédia de Lampedusa, gritou, num tom que
me comoveu: É uma vergonha!
Uma vergonha que quase ninguém terá assumido como sua.
Por isso senti uma dor parecida com a que experimentei
quando vi Bento XVI chorar diante das vítimas da pedofilia.
E também nessa altura fiquei a pensar se terá havido muita
gente a sentir que, afinal, todos tínhamos razão para chorar.
Chorar, não só porque se trata de uma enorme tristeza, mas
porque todos somos, de uma maneira ou de outra, responsáveis por este mundo.
É uma vergonha, diz o Papa.
E eu, convencido de que o âmbito dessa vergonha sai muito do
mar de Lampedusa, acrescento: é verdadeiramente uma vergonha tudo o que se está
a passar nesta zona do globo, que acumula grande parte da riqueza material que
Deus quis para todos, mas que perdeu o rumo, porque ficou sem os valores que
fizeram a sua grandeza.
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