sábado, 5 de outubro de 2013

As fronteiras da vergonha


De repente, não sei bem porquê, veio-me à mente a parábola do rico avarento e do pobre Lázaro, maravilhoso texto do evangelista da misericórdia divina, que recolhe a resposta de Jesus aos que o censuravam pelo carinho que mostrava pelos mais débeis, e não há maior debilidade que a provocada pelo pecado. Resposta que é também um aviso solene aos Seus discípulos, não vão eles pensar que alguém será excluído do Reino, por razões que não tenham a ver coma rejeição dessa misericórdia.  
São já muitos milhares os que morrem à porta do palácio onde se banqueteiam os ricos, que, quanto mais ricos, mais medo têm de quem possa vir incomodar o seu festim esbanjador.
Por isso, assim como deixam morrer à porta os pobres que vêm de longe – clandestinamente, porque os não deixam viajar com a dignidade a que têm direito – matam, antes que possam gritar, os que, com igual direito, querem sentar-se à mesa da família: e estes não são apenas alguns milhares, são milhões, todos os anos.
Nos países ricos, pasme-se!
Porque os pobres sempre conseguem partilhar uma migalha de pão, quando não acontece que os ricos até essa migalha lhes negam.

O Papa, perante a tragédia de Lampedusa, gritou, num tom que me comoveu: É uma vergonha!
Uma vergonha que quase ninguém terá assumido como sua.
Por isso senti uma dor parecida com a que experimentei quando vi Bento XVI chorar diante das vítimas da pedofilia.
E também nessa altura fiquei a pensar se terá havido muita gente a sentir que, afinal, todos tínhamos razão para chorar.
Chorar, não só porque se trata de uma enorme tristeza, mas porque todos somos, de uma maneira ou de outra, responsáveis por este mundo.

É uma vergonha, diz o Papa.
E eu, convencido de que o âmbito dessa vergonha sai muito do mar de Lampedusa, acrescento: é verdadeiramente uma vergonha tudo o que se está a passar nesta zona do globo, que acumula grande parte da riqueza material que Deus quis para todos, mas que perdeu o rumo, porque ficou sem os valores que fizeram a sua grandeza.


Sem comentários:

Enviar um comentário