segunda-feira, 5 de maio de 2014

REFLEXÃO E PARTILHA

Como a última postagem me saiu muito mal, vou prurar repetila 0 Reflexão e partilha 0 Tem este blogue o título genérico de Reflexões Crepusculares: desde há uns tempos, têm sido tantas, essas reflexões, que acabei por não escrever nenhuma; confesso que, algumas vezes, por preguiça, como diz um dos meus sobrinhos; mas foi também pela dificuldade da escolha, já que me parecia que o facto de serem crepusculares lhes imprimia mais responsabilidade. Agora, não sei por que impulso, talvez por um certo borbulhar da seiva primaveril, que tem também o seu quê de canto do cisne, ainda que pouco romântico e muito desafinado, sinto desejo de partilhar algumas reflexões: assim, como quem procura na escrita estímulo e disciplina para que as ideias se desenvolvam com certa ordem. Não me atrai a polémica: direi serenamente o que penso, mas aceito opiniões contrárias e tenho disponibilidade para esclarecer algum ponto mais obscuro, respondendo, se for caso disso, a quem me ler e tiver a amabilidade de comentar, sobretudo se discorda e pede que desfaça alguma confusão. Não escolho os temas, porque me parece que podemos partilhar qualquer reflexão que nasça do amor à verdade. I Negar a partir de uma dúvida? Como estamos em plenas festas pascais, dou em tom de partilha, uma reflexão com elas relacionada, partindo de um curto poema de Miguel Torga: Dúvida O céptico sorriso da paisagem Quando, funéreo, o sino Avisa o mundo de que vai cerrar-se O véu de trevas da Semana Santa. A seiva é tanta A borbulhar nas vinhas, Voam com tal volúpia as andorinhas Rente ao chão semeado, É tão fresco, ligeiro e perfumado O ar que se respira, Que tem de ser mentira O negro pesadelo anunciado. ( Diário IX: S. Martinho de Anta, 12 de Abril de 1960) Tem de ser mentira O negro pesadelo anunciado. E tem mesmo! Melhor, seria mesmo mentira, caso se tratasse, de facto, de um negro pesadelo anunciado. Não sabemos que sino, nem que toque ouviu o poeta de São Martinho de Anta, para lhe chamar funéreo e dizer que avisa o mundo de que vai cerrar-se o véu de trevas da Semana Santa. Pois a Semana Santa, sobretudo o Tríduo Pascal, como agora se chama, é, segundo a fé dos crentes que os celebram, a maior explosão de luz e vida que podemos encontrar em qualquer liturgia, cristã, judaica ou pagã. Talvez Miguel Torga tenha conhecido a prática anterior a 1951, quando a Liturgia Romana, por razões de ordem prática – já que os ritos de quinta, sexta e sábado tinham de realizar-se de manhã – antecipava o Ofício de Leituras, então designado por Matinas, bem como o Ofício de Louvor, designado por Laudes. Ao conjunto chamava-se Ofício de Trevas, porque se realizava à noite e terminava com uma simulação das trevas que cobriram a terra no momento da morte de Cristo (Cf. Lc 23,44-45; Mc 15,33; Mt 27,45). No entanto, dizer que vai cerrar-se/o véu de trevas da Semana Santa, depois das reformas implementadas por Pio XII, assumidas e completadas, segundo o espírito do Vaticano II, por Paulo VI, é, no mínimo inadequado. Acontece, porém, que não é meu intuito criticar Miguel Torga, um poeta que parece conhecer como nenhum outro o discurso da fé, que o utiliza com especial beleza estética, sem, no entanto, conseguir atinar com ela. Também não sabemos em que medida a procurou de facto: sabemos apenas que toda a sua poesia fala de um desfasamento doloroso entre o seu desejo de luz e a inadequação das janelas que se lhe abrem. Ora é precisamente para falar do drama de uma cultura que se conserva estruturalmente cristã, mas que perdeu por completo, ou quase, os conteúdos da fé cristã, que reinicio estas reflexões, partindo da proximidade das festas pascais. Falei de explosão de luz e de vida, relativamente à Páscoa cristã, que, neste aspecto, não desdiz em nada da Páscoa Judaica, que, como é sabido, celebra a libertação do Povo Hebreu da escravatura do Egipto, com ritos recuperados de antigas celebrações primaveris dos pastores que viviam paredes meias com o deserto. O que acontece é que, segundo uma prática de séculos, talvez milénios, largamente documentada no Antigo Testamento, esses ritos, no contexto da Aliança, adquirem um sentido religioso muito especial e tornam-se proféticos, porque anunciam, não já a libertação de um povo escravizado por outro, mas da humanidade inteira esmagada pelo pecado e suas sequelas. Na Páscoa cristã não há qualquer memória de terrorismo selectivo, como teria sido o caso da matança dos primogénitos dos egípcios, para que o Faraó deixasse partir os Hebreus. E a travessia do Mar Vermelho toma-se como símbolo, mais um entre tantos outros, do Baptismo, Mas celebra-se a memória da imolação do Primogénito de toda a criação, figurado no cordeiro, cujo sangue assinalava as casas dos Hebreus, para que nelas não entrasse o anjo exterminador. Jesus Cristo é, pois, o Cordeiro imolado, que morrendo e ressuscitando liberta os homens da tirania da morte e do pecado, que a anuncia. Haverá modo mais autêntico de cantar com a natureza os sorrisos da Primavera? Mas temos de ser honestos. De facto, para quem vê de fora, e não precisa de estar muito longe, nada disto se torna claro na maior parte dos espectáculos de rua – chamemos-lhes assim, para não os confundirmos com a liturgia genuína – que nas nossas cidades e aldeias assinalam a Páscoa. Assim, talvez tenhamos de dar razão a Miguel Torga e a tantos outros que não conhecem da Pascoa cristã senão um ou outro pormenor folclórico, além do sentimentalismo profundamente deslocado da Sexta-feira Santa. Num texto polémico, que cito sem nenhuma intenção de retomar batalhas inúteis, alguém escreveu há relativamente pouco tempo, que a Igreja não celebrava senão o nascimento e a morte de Cristo. Numa conversa de amigos, um deles afirmou com certa graça que essa pessoa passa distraída trezentos e sessenta e três dias do ano. De facto, a Igreja nunca celebra a morte, mas a vida. E tem muita importância saber que o nascimento de Cristo, em sentido próprio, não se celebra senão no Ocidente, e, mesmo assim, só a partir de meados do século IV. No centro de todas as celebrações está a Páscoa, que, tanto no Oriente como no Ocidente, foi sempre vivida como o início da Nova Criação. Dos tempos novos. Honestamente, porém, dado o que a maioria dos cristãos mostra a quem está de fora, compreende-se esse tipo de comentários. Mas também não ficaria mal aos autores desses comentários procurar com mais honestidade o que é necessário, como e onde se deve procurar.

domingo, 4 de maio de 2014

Reflexão e partilha 0 Tem este blogue o título genérico de Reflexões Crepusculares: desde há uns tempos, têm sido tantas, essas reflexões, que acabei por não escrever nenhuma; confesso que, algumas vezes, por preguiça, como diz um dos meus sobrinhos; mas foi também pela dificuldade da escolha, já que me parecia que o facto de serem crepusculares lhes imprimia mais responsabilidade. Agora, não sei por que impulso, talvez por um certo borbulhar da seiva primaveril, que tem também o seu quê de canto do cisne, ainda que pouco romântico e muito desafinado, sinto desejo de partilhar algumas reflexões: assim, como quem procura na escrita estímulo e disciplina para que as ideias se desenvolvam com certa ordem. Não me atrai a polémica: direi serenamente o que penso, mas aceito opiniões contrárias e tenho disponibilidade para esclarecer algum ponto mais obscuro, respondendo, se for caso disso, a quem me ler e tiver a amabilidade de comentar, sobretudo se discorda e pede que desfaça alguma confusão. Não escolho os temas, porque me parece que podemos partilhar qualquer reflexão que nasça do amor à verdade. I Negar a partir de uma dúvida? Como estamos em plenas festas pascais, dou em tom de partilha, uma reflexão com elas relacionada, partindo de um curto poema de Miguel Torga: Dúvida O céptico sorriso da paisagem Quando, funéreo, o sino Avisa o mundo de que vai cerrar-se O véu de trevas da Semana Santa. A seiva é tanta A borbulhar nas vinhas, Voam com tal volúpia as andorinhas Rente ao chão semeado, É tão fresco, ligeiro e perfumado O ar que se respira, Que tem de ser mentira O negro pesadelo anunciado. ( Diário IX: S. Martinho de Anta, 12 de Abril de 1960) Tem de ser mentira O negro pesadelo anunciado. E tem mesmo! Melhor, seria mesmo mentira, caso se tratasse, de facto, de um negro pesadelo anunciado. Não sabemos que sino, nem que toque ouviu o poeta de São Martinho de Anta, para lhe chamar funéreo e dizer que avisa o mundo de que vai cerrar-se o véu de trevas da Semana Santa. Pois a Semana Santa, sobretudo o Tríduo Pascal, como agora se chama, é, segundo a fé dos crentes que os celebram, a maior explosão de luz e vida que podemos encontrar em qualquer liturgia, cristã, judaica ou pagã. Talvez Miguel Torga tenha conhecido a prática anterior a 1951, quando a Liturgia Romana, por razões de ordem prática – já que os ritos de quinta, sexta e sábado tinham de realizar-se de manhã – antecipava o Ofício de Leituras, então designado por Matinas, bem como o Ofício de Louvor, designado por Laudes. Ao conjunto chamava-se Ofício de Trevas, porque se realizava à noite e terminava com uma simulação das trevas que cobriram a terra no momento da morte de Cristo (Cf. Lc 23,44-45; Mc 15,33; Mt 27,45). No entanto, dizer que vai cerrar-se/o véu de trevas da Semana Santa, depois das reformas implementadas por Pio XII, assumidas e completadas, segundo o espírito do Vaticano II, por Paulo VI, é, no mínimo inadequado. Acontece, porém, que não é meu intuito criticar Miguel Torga, um poeta que parece conhecer como nenhum outro o discurso da fé, que o utiliza com especial beleza estética, sem, no entanto, conseguir atinar com ela. Também não sabemos em que medida a procurou de facto: sabemos apenas que toda a sua poesia fala de um desfasamento doloroso entre o seu desejo de luz e a inadequação das janelas que se lhe abrem. Ora é precisamente para falar do drama de uma cultura que se conserva estruturalmente cristã, mas que perdeu por completo, ou quase, os conteúdos da fé cristã, que reinicio estas reflexões, partindo da proximidade das festas pascais. Falei de explosão de luz e de vida, relativamente à Páscoa cristã, que, neste aspecto, não desdiz em nada da Páscoa Judaica, que, como é sabido, celebra a libertação do Povo Hebreu da escravatura do Egipto, com ritos recuperados de antigas celebrações primaveris dos pastores que viviam paredes meias com o deserto. O que acontece é que, segundo uma prática de séculos, talvez milénios, largamente documentada no Antigo Testamento, esses ritos, no contexto da Aliança, adquirem um sentido religioso muito especial e tornam-se proféticos, porque anunciam, não já a libertação de um povo escravizado por outro, mas da humanidade inteira esmagada pelo pecado e suas sequelas. Na Páscoa cristã não há qualquer memória de terrorismo selectivo, como teria sido o caso da matança dos primogénitos dos egípcios, para que o Faraó deixasse partir os Hebreus. E a travessia do Mar Vermelho toma-se como símbolo, mais um entre tantos outros, do Baptismo, Mas celebra-se a memória da imolação do Primogénito de toda a criação, figurado no cordeiro, cujo sangue assinalava as casas dos Hebreus, para que nelas não entrasse o anjo exterminador. Jesus Cristo é, pois, o Cordeiro imolado, que morrendo e ressuscitando liberta os homens da tirania da morte e do pecado, que a anuncia. Haverá modo mais autêntico de cantar com a natureza os sorrisos da Primavera? Mas temos de ser honestos. De facto, para quem vê de fora, e não precisa de estar muito longe, nada disto se torna claro na maior parte dos espectáculos de rua – chamemos-lhes assim, para não os confundirmos com a liturgia genuína – que nas nossas cidades e aldeias assinalam a Páscoa. Assim, talvez tenhamos de dar razão a Miguel Torga e a tantos outros que não conhecem da Pascoa cristã senão um ou outro pormenor folclórico, além do sentimentalismo profundamente deslocado da Sexta-feira Santa. Num texto polémico, que cito sem nenhuma intenção de retomar batalhas inúteis, alguém escreveu há relativamente pouco tempo, que a Igreja não celebrava senão o nascimento e a morte de Cristo. Numa conversa de amigos, um deles afirmou com certa graça que essa pessoa passa distraída trezentos e sessenta e três dias do ano. De facto, a Igreja nunca celebra a morte, mas a vida. E tem muita importância saber que o nascimento de Cristo, em sentido próprio, não se celebra senão no Ocidente, e, mesmo assim, só a partir de meados do século IV. No centro de todas as celebrações está a Páscoa, que, tanto no Oriente como no Ocidente, foi sempre vivida como o início da Nova Criação. Dos tempos novos. Honestamente, porém, dado o que a maioria dos cristãos mostra a quem está de fora, compreende-se esse tipo de comentários. Mas também não ficaria mal aos autores desses comentários procurar com mais honestidade o que é necessário, como e onde se deve procurar.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Bater com a mão no peito dos outros

Bater com a mão no peito dos outros Há dias, ao ler, segundo as normas litúrgicas, o texto de 2Samuel, 12, 1-17, veio-me à ideia a afirmação de uma grande figura da Igreja que, na altura do PREC, se referiu à moda de acusar pessoas e instituições como uma manifestação quase patológica do bater com a mão no peito dos outros. Assim se substituía a humildade do “mea culpa” tradicional pelo ódio acusatório do “tua culpa” revolucionário. Não é bem a mesma coisa; mas toda aquela metáfora do rei encharcado em crimes, que se enfurece contra o abuso singular de um dos seus súbditos, colhe grande significado na nossa época. Os meios de comunicação - em formato digital, em imagem, em papel, impresso e manuscrito -, os salões, as praças e as ruas, todos os espaços de encontro de pessoas, extravasam de protestos. Ainda bem, responde de forma unilateral o nosso instinto democrático: as pessoas têm o direito de se manifestar, e ninguém discute isso. Nem isso tem nada de condenável. Claro, falamos aqui de manifestações e não de gestos violentos ou de incitamento à violência. Portanto, ainda bem que as pessoas se manifestam: isso significa que vivemos em democracia. Então, que tem a ver a resposta de David a Natan com tudo isto? Porque se classifica de metáfora a narração do livro de Samuel? Sem nos metermos em questões de exegese bíblica, para a qual não tenho tempo nem competência, para mim é evidente que a mensagem contida no texto, ao qual não falta uma certa ironia, mais do que transmitir dados biográficos de um determinado personagem, procura fazer-nos ver como a nossa indignação perante os erros dos outros cresce precisamente na medida em que são ultrapassados pelos que não queremos reconhecer em nós. Aliás, os protestos são muitas vezes uma forma de abafar a consciência, de esquecer as próprias responsabilidades exagerando a dos outros. Deixo apenas dois exemplos da esquizofrenia que neste momento esmaga a sociedade portuguesa: um vai em forma de pergunta, outro refere-se a um facto recente. Por exemplo, já alguém pensou seriamente no que pode significar, para a análise dos aleijões da sociedade portuguesa, a dança das audiências nos canais televisivos? E quando, numa tarde de domingo, em pleno inverno, as estradas se enchem de carros, a caminho do mar, gastando combustível e perturbando o trânsito, só para ver as ondas… não terá isto algo a ver com as raízes de uma crise de que ninguém se sente culpado? Somos como David, até ao momento em que, sem olhar para si, queria castigar severamente o poderoso que roubara a ovelhinha ao pobre. Falta-nos ser como ele, quando se deu conta de que o ladrão era ele. Quantas coisas a emendar na nossa vida, para que os protestos não sejam apenas um vício sazonal!

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014


A fé e a memória


Há vários anos, não me lembro quantos, um colega protestava, em tom de pergunta, contra os muitos processos de beatificação e canonização: Isso para que serve? Perguntava ele.
Como a pergunta vinha em tom de censura, não gastei tempo a dar qualquer resposta; nem esse é o meu propósito neste momento, até porque também a ela responde de certo modo o que diz o Papa no nº13 da Evangelii Gaudium.
Aí, entre outras coisas, pode ler-se, já no último parágrafo: O crente é, fundamentalmente, «uma pessoa que faz memória».
 Reparemos bem, que o Papa não diz que o crente é uma pessoa de memória, que se lembra disto ou daquilo, mas «uma pessoa que faz memória».
De facto, “fazer memória” é muito mais do que lembrar-se, ter memória.

Na maior pare das festas e comemorações que se realizam por aí, a lembrar pessoas e acontecimentos do passado, não se faz mais do que tentar avivar a memória, que o tempo vai apagando, reduzindo os contornos emocionais que ajudam a mantê-la viva, durante um certo tempo, até que tudo se apague.
No cristianismo, como em todas as religiões e culturas, também há muitas memórias destas. Umas que se apagam totalmente, outras que são absorvidas, com mais ou menos prejuízo da realidade, pelas tradições culturais. E aí sofrem o tratamento de tudo o que é tradição e não passa de tradição.

Às vezes fica-se apenas com o discurso. Outras nem isso. E quando fica o discurso, acontece com frequência alterarem-se de tal modo os conteúdos, que já não temos nada de cristão por onde lhes pegar.
É a lei da história: não vale a pena lutar contra a inevitabilidade das transformações culturais que nascem da vida das sociedades.

Mas na fé cristã, há coisas que não podem reduzir-se a simples tradições, sob pena de ficarmos com uma fé sem conteúdos, reduzindo o cristianismo a um fenómeno puramente cultural, sujeito aos efeitos do tempo, que inevitavelmente consome tudo o que dele depende.
Basta pensarmos nos sacramentos, que, bem vistas as coisas são o que há de especificamente cristão, já que, pelo menos do ponto de vista formal, tudo o mais se encontra em qualquer outra religião.
De facto, acreditar que determinados ritos, realizados em certas condições, pela comunidade crente, tornam presentes – sem os repetirem, diminuírem ou enriquecerem - os gestos salvíficos de Jesus Cristo, Fundador e Fundamento de toda a estrutura sacramental da Igreja, é algo tão específico da fé cristã, que, por mais que procuremos, não encontramos nenhuma outra atitude religiosa que se lhe iguale.

Daqui podemos concluir que, quando se trata de cristãos, a distinção entre praticantes e não praticantes é pelo menos equívoca e pode carecer totalmente de sentido:
O Papa diz que o crente é, fundamentalmente, «uma pessoa que faz memória».
E como faz ele memória senão através dos sacramentos?
De facto Jesus, no momento da instituição da Eucaristia, depois de afirmar que aquele pão e aquele vinho já não é pão nem vinho, mas o Seu Corpo e o Seu Sangue, entregues pela salvação da humanidade, ordena aos Discípulos:
Fazei isto em memória de mim!
Isto é, como que concretizando o gesto pelo qual, no Jordão, deu início aos ritos que, pela acção do Espírito Santo, fazem de realidades cósmicas elementos da história da salvação, ordena que se faça memória permanente desta sua imolação no seio da comunidade por Ele fundada.
Fazer memória, no sentido bíblico e teológico, que é aquele em que o Papa emprega a expressão, é o que acontece, sempre que a comunidade cristã se reúne para celebrar, comunitariamente e com ritos adequados a sua fé comum.
Em face disto, se, como diz o Papa, o crente é, fundamentalmente, «uma pessoa que faz memória», que sentido terá um cristão, sobretudo um católico, dizer-se não praticante?
Pode legitimamente perguntar-se-lhe, quando se diz, por exemplo, católico não praticante, se não estará a confundir a adesão ao catolicismo com uma atitude puramente cultural, ou, o que seria ainda pior, com a pertença a uma associação de cuja vida e estatutos aproveita o que mais lhe interessa.




segunda-feira, 9 de dezembro de 2013


EVANGELII GAUDIUM

REFLEXÕES SOLTAS

Sem ter a pretensão de ensinar seja o que for a quem quer que seja, pensei que podia oferecer a quem me queira ler e comentar algumas reflexões soltas sobre a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium.

1: O homem é mais do que o homem

 É somente graças a este encontro – ou reencontro – com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, que somos resgatados da nossa consciência isolada e do egocentrismo. Tornamo-nos plenamente humanos, quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos, a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro. Aqui está a fonte da acção evangelizadora. Porque, se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o comunicar aos outros?(EG,8)

Começo por adaptar, não propriamente o texto, que aparece sem que nos dêem o original oficial, marca mais negativa do que se poderia pensar. Não adapto o texto, mas a versão portuguesa, que não me parece ter a dignidade dos ensinamentos do Papa:

“Auto-referencialidade”, em meu entender, termo decalcado, mais do que traduzido, é um neologismo escusado: no fundo, o que o Papa quer dizer fica suficientemente expresso com o nosso “egocentrismo”.
“Chegamos a ser completamente humanos”, é um decalque claro, talvez sobre o castelhano. Mas o Papa não fala propriamente de uma viagem, a não ser em sentido metafórico, e isso dir-se-ia, em português correcto, de outro modo.
Aqui trata-se essencialmente de uma transformação interior que, no contexto da doutrina pontifícia, é mais resultado de um acolhimento do que de uma luta, uma caminhada.

Aliás, vai sendo tempo de reduzirmos na nossa mente o espaço dado ao conceito de luta, conquista, que associamos a tudo o que se relaciona com a fé.
Neste campo, parece que o conceito fundamental é o acolhimento: acolhimento de Deus e daqueles que Ele ama.
Na fé, em qualquer dos casos, é sempre Deus que toma a iniciativa: parafraseando um autor francês contemporâneo, antes de acreditarmos em Deus, é Ele que acredita em nós.
Será o que o Papa exprime com a ideia de encontro:

É somente graças a este encontro – ou reencontro – com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, que somos resgatados da nossa consciência isolada e do egocentrismo.

Isolado e centrado em si mesmo, tomando-se como referência fundamental dos valores que o orientam, o homem não tem saída, nem teórica nem prática, para aquilo que o atormenta.

Podemos dizer a que as interrogações do homem sobre si próprio são tão antigas como o próprio pensamento: desde a mais remota antiguidade que a filosofia e a arte não se cansam de pôr em realce este mistério, que, de facto não encontra resposta nas categorias intramundanas.

Pascal, que neste capítulo repete Eusébio de Cesareia, diz que “o homem ultrapassa infinitamente o homem”, e é partindo daqui que Mgr Albert Arouet, ao apontar algumas das ideologias que têm feito a infelicidade da Europa dos últimos séculos, diz, com toda a propriedade: “Porque o homem que quer definir o homem está sempre a ponto de o limitar. A fé diz-nos que é Deus, o Ilimitado, que vem, não definir, mas pôr o homem perante um horizonte sem limites”.

É outra maneira de expressar o que diz o Vaticano II, num documento que, lido na sua globalidade – coisa que talvez nunca tenha sido realizada devidamente – se conserva plenamente actual:

“Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente. Adão, o primeiro homem, era efectivamente figura do futuro, isto é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime. Não é por isso de admirar que as verdades acima ditas tenham n'Ele a sua fonte e n'Ele atinjam a plenitude” (Gaudium et Spes, 22).

Novidade no ensino do Papa?
Claro que não, e é isso que nos dá segurança ao acolhê-lo e dar-lhe seguimento, evitando, naturalmente, a lavagem ao cérebro que tentam aplicar-nos os semeadores de confusão que abundam por aí.
Esses, se nos não acautelamos, farão com que não fiquemos senão com o que eles desejariam que o Papa dissesse, e não com o que ele de facto disse.

E também é verdade que, neste mesmo número da sua Exortação Apostólica, o Papa recorda o que já o próprio Cristo disse aos seus discípulos: Porque, se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o comunicar aos outros?
Nas palavras de Jesus: Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça (Mt 10,8).



terça-feira, 26 de novembro de 2013


Pediram-me há dias que escrevesse aqui com mais frequência. 
Sobram os temas, mas falta o tempo. Além disso, como não têm aparecido comentários, convenço-me de que os meus textos não despertam interesse. Em todo o caso, o dia em que todos os meios de comunicação social badalaram sobre a chamada violência doméstica, que, na boca dessa gente, é apenas a violência contra as mulheres - já agora seria bom distinguir entre "violência contra as mulheres" e "violência contra a mulher" -, despertou  em mim uma série de reflexões que, dado o seu aspecto crepuscular, talvez venham a aparecer aqui.
Enquanto isso não chega, ofereço a quem me queira ler a página de homenagem aos meus pais publicada no facebook, por ocasião do aniversário do nascimento de minha mãe.
Começo pela citação de um autor francês da actualidade:

“On ne peut pas, par exemple, avoir un même discours sur les femmes indépendament des conditions sociales dans lesquelles elles vivent à travers le monde, parce que les mots n’ont pas le même sens, parce que les problèmes peuvent se retourner très aisément” (Arouet, 332).

O contexto destas palavras do bispo de Poitiers, que neste momento da entrevista se ocupa das relações do cristão com a moral e do cuidado que devemos ter ao falarmos de temas ditos fracturantes, é muito mais vasto do que a problemática da situação da mulher na sociedade. Trata-se de um aviso sobretudo aos ideólogos, que tradicionalmente travam lutas violentas, cuja raiz está mais nos elementos do discurso do que propriamente nas ideias.

Eu, por exemplo, só muito tarde, depois de maiores contactos com a cultura, digamos, burguesa, me dei conta da existência de um discurso relativo à promoção da mulher que, confesso, pouco ou nada significava no mundo real em que nasci e fui criado.

Claro, as nossas estruturas mentais eram profundamente machistas; mas também esta palavra, dadas a conotações que depois lhe conheci, não serve para definir o que se passava na nossa mente em relação à mulher: apesar de trabalhar sempre ao lado do homem, como acontece em qualquer sociedade rural, ela era fundamentalmente um ser frágil, muitas vezes à beira das lágrimas, sem força muscular, mas de uma resistência moral quase provocatória; e sentíamo-la tão essencial ao nosso bem-estar individual e colectivo, que víamos perfeitamente não poder prescindir dela.  
Recordo-me de um dia, ainda adolescente, ter ouvido alguém que se perguntava: porque será que as anedotas são quase todas contra as mulheres e os padres?
Ficou-me na mente a frase, sem o rosto de quem a pronunciou; mas suspeito de que tivesse origem feminina, até pela memória que conservo do tom: espanto e censura.

Talvez se trate de uma estatística aleatória, criada a partir de elementos pouco seguros; eu diria que se algo tem de objectivo, ela é própria de um meio especialmente marcado pela prática religiosa.
Mas não deixa de ser sintomática esta aproximação do padre e da mulher na temática das anedotas, que são, na sua maioria, narrações tipicamente masculinas.
Todos sabemos que a literatura disfémica não nasce propriamente do desejo de dizer mal para destruir. Li um dia num comentador de Hesíodo que os homens manifestam muitas vezes a sua admiração pela mulher com anedotas que só aparentemente vão contra elas. Tratar-se-ia de uma espécie de instinto de defesa. Quando se admira alguém, é fácil passar da admiração ao temor; e este traduz-se numa gama interminável de gestos, que podem ir da brincadeira inofensiva à mais cruel violência.
E aqui está outra coisa que eu nunca fui capaz de entender: aquilo que hoje se designa, talvez de forma demasiado estereotipada, por violência doméstica.

Não duvido de que esta minha visão da mulher tem muito a ver com o que acontecia na minha aldeia: mas ela deve-se sobretudo ao ambiente da família em que nasci e fui criado: chegámos a ser nove naquela casa. Pequena, pobre, mas limpa e arrumada; chegámos a ser nove, com dois terços de homens, que, pelo menos quanto ao que guardo na memória, nunca se sentiram apoiados por qualquer estatuto de superioridade… nem sequer quanto às tarefas domésticas: varrer a casa, lavar a loiça, fazer com que tudo estivesse no seu lugar para facilitar o trabalho, era missão de todos. Havia cisas reservadas aos mais novos, que as executavam à vez, para que não se criasse nenhuma espécie de favoritismo.
Pensando bem, dou-me conta de que tudo isto era obra da dona da casa, a Mãe, que a governava de forma tão discreta, que nem precisávamos da sua presença física, que faltava muitas vezes. De facto, a nossa Mãe gostava de ir ao mercado, às feiras e às festas religiosas, desde que, dizia ela, pudesse, pelo menos ouvir o sermão e participar na procissão, que, diga-se, para esclarecer as coisas, na freguesia, naquele tempo, terminava sempre com a bênção do Santíssimo.

Mãe!
Que grande mulher, que nos ensinou a ser homens, inteiramente homens, até no modo de encarar a mulher, que no seio da nossa família, enquanto não vieram as noras e as netas, sempre esteve em minoria.
Se fosse viva, faria hoje cento e doze anos: era um ano mais nova que o Pai.

A minha homenagem, aos dois, como fiz no dia em que ele completaria cento e treze, tem muito a ver com as palavras de Mons Arouet, não tanto pelo seu conteúdo, como sobretudo pelo que me recordam sobre a injustiça dos lugares comuns e do vedetismo que se cultiva nos meios de comunicação social, relativamente a valores que a gerações que nos precederam abraçaram com uma generosidade muito próxima do heroísmo, e alguns pregoeiros da nossa praça pretendem ter descoberto na última curva da estrada.
E quem dera que isto acontecesse apenas com a problemática ligada à condição feminina.
Aliás, ainda relativamente a este ponto, no ocidente europeu, alguém se tem preocupado a sério em estudar as raízes daquilo que alguns combatem de forma tão violenta?

E depois, será que, por exemplo, nos países de religião muçulmana e cultura de influência árabe, se está a lutar pela promoção da mulher ou antes pela sua ocidentalização, precisamente naquilo que o ocidente tem de pior? Não será isto promover um certo radicalismo que nem o Alcorão advoga?

Como nos faria bem cultivar mais a virtude da humildade!

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O pecado original

A expressão “pecado original”, não tem aqui significado teológico: de facto, ela usa-se correntemente em português para designar qualquer erro que pode considerar-se como raiz de outros males; é nesse sentido que se toma aqui.
 Embora nos situemos na narração das origens contida num texto que os crentes consideram escrito com uma especial assistência do Espírito Santo, falamos de erro e não de pecado, para nos não perdermos em considerações de ordem moral.
Ainda que não seja fácil prescindir da presença de uma teologia em textos inspirados, gostaríamos de pôr em realce sobretudo a sua antropologia.
Aliás, já na expressão “textos inspirados” é necessário distinguir o texto e a inspiração propriamente dita, que, como assistência divina, não limita nem condiciona, senão de forma indirecta, a produção do texto: nesta é imprescindível ter em conta a cultura e a arte do autor humano.
Reparemos, pois, na “fabula”, evitando o mais possível partir da fé; o que seria, em certo sentido, para empregar uma expressão popular, pôr o carro à frente dos bois.
Dizemos, “o mais possível”, porque o redactor final do texto foi evidentemente guiado pela fé, e nós só podemos tentar descobrir a antropologia em que encarna essa fé: Assim como quem, diante de uma bela catedral gótica, procura identificar a arte que pôs as pedras ao serviço de uma comunidade crente, que reza e evangeliza, evangelizando-se a si própria.

Unimos os capítulos segundo e terceiro numa única estrutura narrativa: nela, vai-se do deserto estéril que era o mundo sem a presença do homem, à tragédia do deserto em que se transforma o mesmo homem, por um erro capital que comete no interior desse mundo, depois de o ter experimentado como um jardim de delícias.
Jardim de delícias que atinge a máxima excelência quando o homem se descobre capaz de diálogo com alguém que, apesar de igual a ele, é totalmente outro. E desse outro dependente, para esse outro existente, como dom e donatário. O que significa a descoberta de uma capacidade de comunhão interpessoal, que não é possível a nível das criaturas, senão entre duas pessoas livres, radicalmente iguais, mas irremediavelmente diferentes: a estas duas pessoas, que na economia narrativa do texto constituem uma para outra dom e donatário, dá-se, no português actual, o nome de homem e mulher.
Mas a poesia do mesmo texto apresenta-nos o homem como a coroa da criação – sem ele o mundo é um deserto estéril - e a mulher, a joia da coroa – sem ela o homem é um eterno solitário, vagando nesse deserto em busca de uma comunhão impossível.

O drama começa quando coroa e joia se esquecem de que perdem sentido sem a cabeça que as sustém:
Sem a cabeça, é de esperar que aqueles que eram simultaneamente dom e donatário um para o outro abandonem essa perspectiva; e, passando pela ideia de que são dom um do outro, rapidamente chegam à loucura de que são proprietário um do outro.
Na construção poética do capítulo terceiro do Génesis, o cúmulo da desordem está em que as criaturas mais excelentes se deixam seduzir pelas inferiores: a serpente, apesar da sua astúcia, não deixa de ser um animal rastejante.
Dir-se-ia que a criação inteira, que, segundo o texto sagrado, o próprio Deus, depois de ter criado o homem e a mulher, achou que era muito boa, entrava assim numa trágica espiral de iniquidade, tão grave e tão profunda, que o melhor seria destruí-la imediatamente.
É aqui que não podemos prescindir da fé que inspirou o texto:

O cardeal Ratzinger afirmou um dia que, depois do pecado, Deus não tinha alternativa: ou destruía a criação ou Se fazia Ele próprio criatura. E talvez seja bom recordar que, este mesmo cardeal, já como sucessor de Pedro na sé de Roma, afirmou que sem Deus, o homem não constrói o paraíso, mas o inferno.

De facto, Deus não destrói a criação: vem à procura do homem, que não priva de nenhuma das suas prerrogativas como coroa e joia da coroa da criação e ao qual oferece os meios necessários à realização do seu destino último, tornado agora mais difícil, como resultado da cedência à tentação de se considerar senhor do que não lhe é concedido senão como dom e tarefa.

Fica o aviso solene, que os capítulos seguintes do livro sagrado ilustram com exemplos chocantes:
Esquecido da sua dimensão vertical, sem a referência objectiva da lei divina, o homem não só é capaz, mas comete muitas vezes as maiores arbitrariedades, os piores e inimagináveis crimes.
E contra isto não têm força as leis, que, aliás são tanto mais numerosas, acerca de tudo e de todos, quanto menos a sociedade conta com o legislador supremo, que é Deus.

Sem querer contestar nada do que diz a fé sobre o erro das origens, no seu significado teológico, chamei pecado original ao gesto com que o homem – o homem e a mulher – tentam, desde o início, apoderar-se das criaturas, pondo de lado o Criador.
Metáfora e cristalização desta desordem é o envenenamento das relações marido/ mulher, com as categorias kantianas dos direitos e deveres, que começam quando, na dinâmica do amor, se substitui a beleza da sedução pela crueldade da conquista.
Afinal, todos sabemos que onde há amor não faz sentido falar-se de conquista.