domingo, 4 de maio de 2014
Reflexão e partilha
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Tem este blogue o título genérico de Reflexões Crepusculares: desde há uns tempos, têm sido tantas, essas reflexões, que acabei por não escrever nenhuma; confesso que, algumas vezes, por preguiça, como diz um dos meus sobrinhos; mas foi também pela dificuldade da escolha, já que me parecia que o facto de serem crepusculares lhes imprimia mais responsabilidade.
Agora, não sei por que impulso, talvez por um certo borbulhar da seiva primaveril, que tem também o seu quê de canto do cisne, ainda que pouco romântico e muito desafinado, sinto desejo de partilhar algumas reflexões: assim, como quem procura na escrita estímulo e disciplina para que as ideias se desenvolvam com certa ordem.
Não me atrai a polémica: direi serenamente o que penso, mas aceito opiniões contrárias e tenho disponibilidade para esclarecer algum ponto mais obscuro, respondendo, se for caso disso, a quem me ler e tiver a amabilidade de comentar, sobretudo se discorda e pede que desfaça alguma confusão.
Não escolho os temas, porque me parece que podemos partilhar qualquer reflexão que nasça do amor à verdade.
I
Negar a partir de uma dúvida?
Como estamos em plenas festas pascais, dou em tom de partilha, uma reflexão com elas relacionada, partindo de um curto poema de Miguel Torga:
Dúvida
O céptico sorriso da paisagem
Quando, funéreo, o sino
Avisa o mundo de que vai cerrar-se
O véu de trevas da Semana Santa.
A seiva é tanta
A borbulhar nas vinhas,
Voam com tal volúpia as andorinhas
Rente ao chão semeado,
É tão fresco, ligeiro e perfumado
O ar que se respira,
Que tem de ser mentira
O negro pesadelo anunciado.
( Diário IX: S. Martinho de Anta, 12 de Abril de 1960)
Tem de ser mentira
O negro pesadelo anunciado.
E tem mesmo! Melhor, seria mesmo mentira, caso se tratasse, de facto, de um negro pesadelo anunciado.
Não sabemos que sino, nem que toque ouviu o poeta de São Martinho de Anta, para lhe chamar funéreo e dizer que avisa o mundo de que vai cerrar-se o véu de trevas da Semana Santa.
Pois a Semana Santa, sobretudo o Tríduo Pascal, como agora se chama, é, segundo a fé dos crentes que os celebram, a maior explosão de luz e vida que podemos encontrar em qualquer liturgia, cristã, judaica ou pagã.
Talvez Miguel Torga tenha conhecido a prática anterior a 1951, quando a Liturgia Romana, por razões de ordem prática – já que os ritos de quinta, sexta e sábado tinham de realizar-se de manhã – antecipava o Ofício de Leituras, então designado por Matinas, bem como o Ofício de Louvor, designado por Laudes. Ao conjunto chamava-se Ofício de Trevas, porque se realizava à noite e terminava com uma simulação das trevas que cobriram a terra no momento da morte de Cristo (Cf. Lc 23,44-45; Mc 15,33; Mt 27,45).
No entanto, dizer que vai cerrar-se/o véu de trevas da Semana Santa, depois das reformas implementadas por Pio XII, assumidas e completadas, segundo o espírito do Vaticano II, por Paulo VI, é, no mínimo inadequado.
Acontece, porém, que não é meu intuito criticar Miguel Torga, um poeta que parece conhecer como nenhum outro o discurso da fé, que o utiliza com especial beleza estética, sem, no entanto, conseguir atinar com ela.
Também não sabemos em que medida a procurou de facto: sabemos apenas que toda a sua poesia fala de um desfasamento doloroso entre o seu desejo de luz e a inadequação das janelas que se lhe abrem.
Ora é precisamente para falar do drama de uma cultura que se conserva estruturalmente cristã, mas que perdeu por completo, ou quase, os conteúdos da fé cristã, que reinicio estas reflexões, partindo da proximidade das festas pascais.
Falei de explosão de luz e de vida, relativamente à Páscoa cristã, que, neste aspecto, não desdiz em nada da Páscoa Judaica, que, como é sabido, celebra a libertação do Povo Hebreu da escravatura do Egipto, com ritos recuperados de antigas celebrações primaveris dos pastores que viviam paredes meias com o deserto.
O que acontece é que, segundo uma prática de séculos, talvez milénios, largamente documentada no Antigo Testamento, esses ritos, no contexto da Aliança, adquirem um sentido religioso muito especial e tornam-se proféticos, porque anunciam, não já a libertação de um povo escravizado por outro, mas da humanidade inteira esmagada pelo pecado e suas sequelas.
Na Páscoa cristã não há qualquer memória de terrorismo selectivo, como teria sido o caso da matança dos primogénitos dos egípcios, para que o Faraó deixasse partir os Hebreus.
E a travessia do Mar Vermelho toma-se como símbolo, mais um entre tantos outros, do Baptismo,
Mas celebra-se a memória da imolação do Primogénito de toda a criação, figurado no cordeiro, cujo sangue assinalava as casas dos Hebreus, para que nelas não entrasse o anjo exterminador.
Jesus Cristo é, pois, o Cordeiro imolado, que morrendo e ressuscitando liberta os homens da tirania da morte e do pecado, que a anuncia.
Haverá modo mais autêntico de cantar com a natureza os sorrisos da Primavera?
Mas temos de ser honestos.
De facto, para quem vê de fora, e não precisa de estar muito longe, nada disto se torna claro na maior parte dos espectáculos de rua – chamemos-lhes assim, para não os confundirmos com a liturgia genuína – que nas nossas cidades e aldeias assinalam a Páscoa.
Assim, talvez tenhamos de dar razão a Miguel Torga e a tantos outros que não conhecem da Pascoa cristã senão um ou outro pormenor folclórico, além do sentimentalismo profundamente deslocado da Sexta-feira Santa.
Num texto polémico, que cito sem nenhuma intenção de retomar batalhas inúteis, alguém escreveu há relativamente pouco tempo, que a Igreja não celebrava senão o nascimento e a morte de Cristo.
Numa conversa de amigos, um deles afirmou com certa graça que essa pessoa passa distraída trezentos e sessenta e três dias do ano.
De facto, a Igreja nunca celebra a morte, mas a vida. E tem muita importância saber que o nascimento de Cristo, em sentido próprio, não se celebra senão no Ocidente, e, mesmo assim, só a partir de meados do século IV. No centro de todas as celebrações está a Páscoa, que, tanto no Oriente como no Ocidente, foi sempre vivida como o início da Nova Criação. Dos tempos novos.
Honestamente, porém, dado o que a maioria dos cristãos mostra a quem está de fora, compreende-se esse tipo de comentários.
Mas também não ficaria mal aos autores desses comentários procurar com mais honestidade o que é necessário, como e onde se deve procurar.
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