quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Bater com a mão no peito dos outros

Bater com a mão no peito dos outros Há dias, ao ler, segundo as normas litúrgicas, o texto de 2Samuel, 12, 1-17, veio-me à ideia a afirmação de uma grande figura da Igreja que, na altura do PREC, se referiu à moda de acusar pessoas e instituições como uma manifestação quase patológica do bater com a mão no peito dos outros. Assim se substituía a humildade do “mea culpa” tradicional pelo ódio acusatório do “tua culpa” revolucionário. Não é bem a mesma coisa; mas toda aquela metáfora do rei encharcado em crimes, que se enfurece contra o abuso singular de um dos seus súbditos, colhe grande significado na nossa época. Os meios de comunicação - em formato digital, em imagem, em papel, impresso e manuscrito -, os salões, as praças e as ruas, todos os espaços de encontro de pessoas, extravasam de protestos. Ainda bem, responde de forma unilateral o nosso instinto democrático: as pessoas têm o direito de se manifestar, e ninguém discute isso. Nem isso tem nada de condenável. Claro, falamos aqui de manifestações e não de gestos violentos ou de incitamento à violência. Portanto, ainda bem que as pessoas se manifestam: isso significa que vivemos em democracia. Então, que tem a ver a resposta de David a Natan com tudo isto? Porque se classifica de metáfora a narração do livro de Samuel? Sem nos metermos em questões de exegese bíblica, para a qual não tenho tempo nem competência, para mim é evidente que a mensagem contida no texto, ao qual não falta uma certa ironia, mais do que transmitir dados biográficos de um determinado personagem, procura fazer-nos ver como a nossa indignação perante os erros dos outros cresce precisamente na medida em que são ultrapassados pelos que não queremos reconhecer em nós. Aliás, os protestos são muitas vezes uma forma de abafar a consciência, de esquecer as próprias responsabilidades exagerando a dos outros. Deixo apenas dois exemplos da esquizofrenia que neste momento esmaga a sociedade portuguesa: um vai em forma de pergunta, outro refere-se a um facto recente. Por exemplo, já alguém pensou seriamente no que pode significar, para a análise dos aleijões da sociedade portuguesa, a dança das audiências nos canais televisivos? E quando, numa tarde de domingo, em pleno inverno, as estradas se enchem de carros, a caminho do mar, gastando combustível e perturbando o trânsito, só para ver as ondas… não terá isto algo a ver com as raízes de uma crise de que ninguém se sente culpado? Somos como David, até ao momento em que, sem olhar para si, queria castigar severamente o poderoso que roubara a ovelhinha ao pobre. Falta-nos ser como ele, quando se deu conta de que o ladrão era ele. Quantas coisas a emendar na nossa vida, para que os protestos não sejam apenas um vício sazonal!

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