quarta-feira, 20 de julho de 2011

POST MORTEM



Morrer para saberem quem sou
(página de um diário fragmentado e soluçante)

Como há meses que não escrevo nada neste blog, vou pedir licença para fixar nele dois ou três dos muitos pensamentos que me têm provocado os comentários surgidos na imprensa e na televisão, a propósito do falecimento de alguns personagens da nossa praça.
Não vou discutir os méritos ou deméritos das pessoas, nem espantar-me com aquilo que já se ouvia na minha aldeia, quando eu ainda era criança: que para alguém ser bom, basta morrer.
Queria apenas falar de um exemplo das últimas semanas, que, digo-o com uma certa vergonha, mas sem rodeios, constituiu uma enorme surpresa para o poente da minha jornada histórica.
Falo de Maria José Nogueira Pinto!
Foram anos seguidos a ouvir falar dela, das suas intervenções na vida política, partidária e não partidária; em discursos cuja coerência nem sempre era fácil de descobrir, sobretudo quando os outros, os que navegavam em águas diferentes… não é que não estivessem de acordo: simplesmente tinham medo de parecer apoiantes de quem discordava da sua ideologia.
Fico contente por ver que muitos, após a sua morte, vieram a terreiro falar das suas qualidades de mulher – esposa e mãe – de cidadã; “cristã empenhada” chamou-lhe um seu companheiro de luta juvenil, mas que ideologicamente sempre esteve do outro lado.
É bonito e, de certo modo, reconfortante.
Mas não deixa de ser triste que tenhamos de morrer para descobrirem a generosidade da nossa luta: às vezes vem-nos a tentação de pensar que, afinal, também nisto pode hver muita hipocrisia.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

ESPAÇO SCHENGEN

E agora?

Todos sabemos que, na Europa, o regime de fronteiras e passaportes nasceu da desconfiança e dos ressentimentos gerados pela Grande Guerra, que seria bom fazer voltar à memória das gentes pelos horrores que a acompanharam, na alvorada de um século que o cientificismo da véspera havia anunciado como o grande século da convivência humana, sem Deus, nem ideologias que nos dividissem.
Foi preciso que viesse outro cataclismo bélico, para que os homens compreendessem que, com religião ou sem ela, só com a abolição de fronteiras – todo o tipo de fronteiras, a começar pelas do egoísmo – seria possível chegar a essa harmonia.
Bem o entenderam os fundadores da União Europeia.
Os fundadores; porque nas últimas décadas, parece que os seus continuadores se vão afastando cada vez mais daquele belíssimo projecto inicial.
No entanto, poderíamos contar entre um dos passos no sentido da realização desse projecto, a abolição das fronteiras terrestres, criando assim o chamado espaço Schengen.
Claro que isto não trouxe só vantagens, até porque há sempre quem procure aproveitar-se da generosidade dos outros para cultivar o seu egoísmo. Tudo tem o seu preço; e nas relações humanas, quando nos recusamos a perder, não fazemos mais do que criar barreiras.
Aparecem agora alguns países a propor a suspensão do tal espaço Schengen, e há quem tenha já decidido a reabertura das fronteiras.
Com argumentos razoáveis, diríamos mesmo excelentes. Mas que escondem mal o egoísmo larvar que, pode dizer-se também, foi a mola real da adesão de muitos desses países a um espaço que lhes oferecia inegáveis vantagens económicas.
Pessoalmente, o que me inquieta é que é precisamente este egoísmo, mascarado de patriotismo, que alimenta o ressurgir dos partidos mais radicais da direita anti-democrática.
Com máscaras não se vai além do Carnaval, que, bem vistas as coisas, deixa sempre um travo amargo na boca de quem o joga.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Atrás e atrasado

Durante décadas ouvi dizer aos analistas de vários quadrantes que Portugal era um país atrasado. Maneira de falar que me irritava, sobretudo quando a detectava na linguagem dos estrangeiros que tinham de nós um conhecimento pouco mais que livresco; ou quando me chegava com uma carga ideológica que dificultava a descoberta do núcleo de verdade que realmente continha.
E foi a partir daqui que comecei a aprender que esse núcleo de verdade era também manipulado por muitos daqueles que, consciente ou inconscientemente, haviam criado as fontes desse atraso, ou herdado as ideias desses criadores.
Portugal um país atrasado!
Vejam bem: um país que, com pouco mais de um milhão de habitantes, conseguiu assombrar o mundo, ao qual abriu as rotas do universo, deixando-lhe novos mundos, na geografia e na cultura. Em cuja língua se escreveu a maior e mais bela expressão do pensamento que reflecte sobre o significado transcendente da história humana. Que é também a língua na qual, entre a ficção e a realidade, se exprime o carácter relativo de todas as culturas. Um país que, no século dezassete alimentou a Universidade de maior prestígio na Europa…
Este é um país atrasado.
Todos os sentimos, e só nos amargura que sejam as ideologias herdeiras do pensamento que nos decapitou culturalmente, as que mais barulho fazem por causa disso. E amargura-nos sobretudo porque é em nome da fuga a esse atraso que nos põem cada vez mais atrás.
Foi desse erro que nasceu o famigerado “acordo ortográfico”, que é só ortográfico apenas para quem não abre os olhos ou não tem qualquer sensibilidade para os fenómenos linguísticos.
Porque, quer se queira, quer não, como foi concebido e está a ser posto em prática, este novo modo de escrever, além de algumas confusões inevitáveis, vai dar um golpe de morte a muitas mudanças que caracterizavam o português de Portugal, que não era mais português que o do Brasil, mas também não era menos. Era diferente, e assim devia continuar a sua própria história. Não é verdade que as diferenças das partes enriquecem o todo?
Ninguém me tira da cabeça que, com este “acordo”, do ponto de vista da língua, recuámos pelo menos dois séculos.
Será por esta psicose do recuo que se tem introduzido um atrás, sempre que se usa o verbo haver para exprimir a ideia de tempo passado?
Dizer um ano atrás, como os ingleses, a year ago, ou os italianos, un ano indietro, parece-me correctíssimo. Mas dizer que há um ano atrás… ronda pelo absurdo. E porque este absurdo se repete por aí a cada passo, as pessoas vão-se esquecendo de que o verbo haver, quando significa existir, é impessoal: "havia lá muitas pessoas", "haverá ainda alguns procedimentos obrigatórios…", formas correctas, infelizmente a rarear sobretudo nos meios mais “cultos”, onde aparece com frequência: haviam lá muitas pessoas, haverão ainda alguns procedimentos obrigatórios.
Será mero acaso?

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Há crises e crises

As raízes da diferença Estava para aqui, como quem sacode moscas importunas, tentando afastar os pensamentos despoletados por aquela reportagem televisiva, vinda das praias do sul da Espanha, quando me veio parar às mãos um texto, que não está assinado, mas que talvez não precise disso, precisamente porque muita gente pensará do mesmo modo, ainda que não saiba como, ou talvez não tenha coragem de exprimi-lo. Crises. A primeira de que me lembro, foi logo a seguir à guerra: Não havia BCE, nem FEEF, nem FMI. Havia um governante que não queria aumentar a despesa, porque sabia que não podia pagar. E não aumentava a receita porque nos sabia pobres. Tudo era muito caro, e chegou um momento em que, mesmo caro, não havia no mercado. Éramos todos pobres, mas honrados e solidários: Graças a Deus e à prevenção de meus pais, nunca experimentei o tormento da fome; mas vi-o no rosto de muitos companheiros de rua, com os quais partilhava o pedaço de broa que eles olhavam nas minhas mãos, quando saía de casa. Era pouco para todos, mas podíamos assim ter em comum, jogos e alegria. Ninguém vivia acima das suas posses, e estávamos atentos para que a nenhum dos nossos vizinhos faltasse o essencial. Repare-se que não estou a fantasiar. Pode ser que não tenha sido assim em todo o país; mas foi o que eu próprio vi e experimentei na minha aldeia. Claro que não se sonhava ainda com uma Páscoa passada no Algarve e muito menos com umas férias nas praias do sul da Espanha. E não morreu ninguém com fome nem desesperado. As outras duas crises vieram muito anos depois: Já havia FMI, mas não se falava ainda de nada que se parecesse com BCE ou FEEF. E sobretudo não tinha havido a ilusão do dinheiro fácil, e a comunicação social era menos ávida do consumismo de leitores e ouvintes. Depois, os políticos, governantes ou não, estavam longe de imitar aquele chefe egípcio da década de sessenta do século passado que um seu émulo do mundo muçulmano comparava com a máquina de um comboio que consumia todo o gás a apitar. Parece pouco, mas faz muita diferença. Tanta que desta vez o comboio não arranca… ou talvez venha a arrancar, depois dos empurrões vindos de fora; mas não temos a certeza se chega ao termo da viagem, ou se virá a perder-se em algum trágico descarrilamento.

terça-feira, 15 de março de 2011

ATÉ AO FIM


Até ao fim.

Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo (João: 13, 1).
Não sei se este até ao extremo traduz bem o “eis ta ésghata”, do grego. O que me parece é que o tradutor está demasiado inquieto com a cena de Jesus lavando os pés aos discípulos e não entende todo o alcance da afirmação de João, que quer levar-nos até ao mais íntimo do coração do Mestre, do seu amor pelo Pai, cuja vontade era a nossa salvação, da absoluta inteireza com que levou até ao fim a lealdade para com aqueles a quem chamava amigos.
Já não vos chamo servos, visto que um servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai. Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça; e assim, tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome Ele vo-lo concederá (João: 15,15-16).
E Jesus quer que os seus discípulos percebam o sentido desta amizade, que tem de existir também entre eles, com a mesma dinâmica e as mesmas exigências… até ao fim, no caminho e na meta: a meta será e ressurreição, porque quando se morre verdadeiramente por amor, Deus não permitirá que a morte tenha a última palavra.
O que, aliás, acontecerá também com o ódio: para o ser humano, a morte nunca será a última palavra, porque ou se morre por amor e então ressuscitar-se-á para a vida eterna, ou se morre mergulhado no ódio e então ressuscitar-se-á para morte eterna.
Se calhar, os teólogos não exploraram ainda suficientemente este mistério do amor e do ódio, no momento supremo de se concluir a nossa história pessoal.

A minha é uma reflexão crepuscular: unindo a tarde com a madrugada, tentado outro sentido para a noite, sem atravessar a qual não se chega de um dia ao outro dia.
Hoje fala-se muito de objectivos; é bom que se dê importância à recomendação que nos vem já dos Romanos, inultrapassáveis mestres de prática política: in omnibus respice finem. O fim, como consequência, mas sobretudo como objectivo a alcançar.
É claro que, numa ética minimamente correcta, os fins não justificam os meios.
Mas também é verdade que quando se não sabe para onde se caminha, é impossível saber como se deve caminhar.
Os fins não justificam os meios, mas os meios, por muito correctos que sejam, só por acaso levam aos fins.
Ou eu me engano muito ou uma das razões que nos fazem andar todos à rasca, está na ausência de objectivos universais que permitam uma mobilização universal, ainda que com meios diferentes.
Mas como podem estabelecer-se fins universais onde não há valores universais? Andamos todos a correr atrás do imediato, que fascina mais do que mobiliza, desarmoniza mais do que pacifica.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Dores da memória


Entre Leptis Magna a Trípoli

Cartago, 7 de Março de 203: Roma, que, pelas armas e a diplomacia, transformara o Mediterrâneo no mare nostrum com que havia séculos sonhavam as grandes famílias donde provinham magistrados e legionários, sentia-se, no entanto, ameaçada por um inimigo interno que parecia crescer e fortalecer-se, precisamente na medida em que o combatia.
Mário e Sila, depois de Cipião, haviam conseguido que o Margrebe, apesar do carácter indomável dos Berberes, percebesse finalmente quanto tinha a ganhar com a sua inserção no mundo romano; e aqueles que, como acontecera com Jugurta, ambicionavam promoções pessoais, imitando os colonos vindos do outro lado do mar, aderiam de armas e bagagens à guerrilha do cursus honorum, por onde poderiam chegar à suprema magistratura da Nação.
Fora o que acontecera com Lúcio Septímio Severo, que, nascido na cidade vizinha de Leptis Magna, 57 anos antes, há dez que era o senhor supremo de todo o Império, cujas fronteiras se alargavam permanentemente, graças às vitórias dos soldados – as legiões haviam mudado de nome e estatuto – sob o comando deste berbere, que tinha finalmente nas mãos os instrumentos necessários a uma resposta cabal ao que na sua mente gerava a mistura da pertinácia – Pertinax, aliás era um dos seus nomes de família - dos margrebinos, com a ambição romana.
7 de Março de 203, Septímio Severo, 57 anos de idade e 10 de Império, impotente, como os seus antecessores perante o avanço do cristianismo, como eles ordena que sejam perseguidos até à morte os aderentes a essa nova fé.
Em Cartago, ali, a dois passos da cidade natal do Imperador, que a transformara na grande concorrente das outras cidades africanas do Império, duas mulheres, uma das quais mãe de família, pagavam com a vida a coragem com que haviam defendido a sua liberdade de consciência.
Leptis Magna chama-se hoje Trípoli, como Cartago se pode identificar com Tunes.
Os tiranos mudaram de nome, mas não perderam nada em crueldade; o que talvez seja novo é a hipocrisia dos poderosos que fingem defender os valores constantemente ameaçados, mais por esta hipocrisia do que por aquela crueldade.

segunda-feira, 7 de março de 2011

A Paixão do Crepúsculo

Aqui está mais uma palavra polissémica que o facto de ser usada quase num único sentido fez com que, ao ouvi-la, a maioria dos portugueses pense o contrário do que me vem à cabeça, neste momentro, quando falo da paixão do crepúsculo.
Porque, de facto, aquilo que sempre me seduziu foram as madrugadas: de tal modo que um dia fiquei de pé toda a noite - nesse tempo as aldeias não tinham iluminação pública, e eu vivia na aldeia - para ver como era realmente o amanhecer. E o que experimentei, não poderei mais esquecê-lo. Devo, no entanto, confessar que se criei um novo Blog foi sobretudo a pensar no colorido os anos passados trazem ao que tenho de ver e experimentar na tarde da vida.
Para que nem tudo se reduza a impertinências de velho, procurarei misturar os dois principais campos semânticos da palavra crepúsculo: a tarde e madrugada esmagando a noite para que o dia seja mais longo.
Um abraço para todos os que quiserem ler-me e tiverem a bondade de fazer os seus comentários, que, mesmo quando negativos, serão sempre instrutivos.