Vai para um ano que não escrevo nada nesta página. Tenho resistido a fazê-lo, por muitas razões, que neste momento, não vêm ao caso. As pressões têm aumentado ultimamente; e há dias, sem que nada o fizesse esperar, veio-me ter às mãos um texto que escrevi há quarenta e três, que esquecera já, mas que me pareceu justo publicar: de homenagem em homenagem, o Joaquim Pedro foi das pessoas a quem muito fiquei a dever e que continuo a recordar com enorme saudade e gratidão. Vai texto como saiu na altura: servirá de pórtico às reflexões que aqui for lançando nesta fase de luta contra a preguiça crepuscular.
Duas Lágrimas de Saudade
Sexta-feira Santa!
Uma tarde fria, com o céu carregado de nuvens, a ameaçar
chuva.
Na igreja terminara há pouco, a celebração litúrgica
comemorativa da Morte do Senhor.
Seria a melancolia do momento, a saudade, que crescera com a
ausência dos fiéis no templo, ou antes a força de um desejo que recalcava há
três dias?
Sim! Há três dias!
Essa fora um atarde de Primavera!
Primavera no céu, tristeza nas almas, que, apesar do
conforto da Fé, não podiam assistir indiferentes à última despedida de quem
partia deixando um vazio profundo em todos nós.
Eu assistira antes, tomara parte, de olhos húmidos, em todo
o funeral e ficara com o desejo de voltar ali, sozinho, longe dos olhares
indiscretos de quem não compreende as razões profundas das almas, a terminar a
conversa que, poucos dias antes, ficara incompleta, na sacristia da igreja,
porque nenhum de nós suspeitava de que seria o nosso último encontro… Se até
ficou combinado eu passar lá por casa a provar um pouco do novo!…
Como é fugidia a vida!
Bem o compreendeu ele!
Por isso, sim, por isso o Senhor o chamou quando todos nós o
queríamos ainda mais preso a este mundo.
Era tão novo ainda!
Não! Quem trabalhou assim pelo Reino de Deus, sacrificando
tudo, quando era preciso servir os outros, não pode dizer-se novo!
Novos nos consideramos nós, que passamos a vida sem produzir
obra que se veja, Daí que nos pareça sempre cedo demais para morrer.
Não era este o caso do Joaquim Pedro, que por um motivo
apenas se agarrava à vida: parecia-lhe que estava ainda por terminar a sua obra
de esposo e pai; mas nunca o vimos considerar-se novo para morrer; e foi com um
sorriso, um sorriso amargo, mas um sorriso, apesar de tudo, que me disse, nessa
conversa que não terminámos, que agora só lhe faltava a última viagem – a do
cemitério.
E não demorou muito a fazê-la, não, pobre amigo.
Mas fê-la de um modo que podemos considerar prémio das suas
virtudes, dos eu amor ao bem dos outros.
Eu fiquei com o desejo de voltar aqui, para continuar, junto
das leivas que cobrem o seu corpo, aquele diálogo interrompido; mas os meus
pensamentos andam desordenados, e não posso senão monologar com as minhas
recordações:
Era ainda criança quando aos meus ouvidos soou pela primeira
vez o nome de Joaquim Pedro: falava-se então dos problemas a sua sucessão na
direcção da JAC, pois até aí a “Juventude”, como então se dizia, confundira-se
com um punhado de rapazes, de que o Joaquim Pedro fora o guia e o chefe
incontestado.
Encontrei-o mais tarde nas lides apostólicas relacionadas
com a comunidade onde ambos fomos criados para a Fé; e a admiração converteu-se
em amizade, uma amizade que cresceu sempre, porque me foi fácil ver que tinha
diante de mim um homem, com defeitos como todos os outros, mas com uma alma de
apóstolo, como muito poucos.
E é esta alma de apóstolo que não poderei nunca esquecer,
que me deixa uma saudade indestrutível, porque vai sendo cada vez mais difícil encontra-las assim…
desinteressadas, humildes (quantas vezes a humildade do Joaquim Pedro me
comoveu!), e prontas a tudo… de uma prontidão que chegou mesmo, em certas
ocasiões de que só agora vejo o carácter providencial, a sacudir a minha alma
sacerdotal, à beira de se acomodar a situações fáceis.
Não, não poderei nunca esquecer essa conversa íntima, num
quarto da Rua Bayard, em Gargan, a falar de problemas que estavam longe
geograficamente, que estavam mesmo longe do meu coração, eu viajava como
simples estudante, mas ele, ele, o emigrado gasto pelo trabalho, que acabava de
chegar de Paris, onde fora encontrar-se com os padres da missão, soube
aproximar-se de mim… e eu não pude já como simples estudante!...
E depois, aquelas longas viagens de muitas horas, uma de
dias, confundidos com milhares de passageiros que mergulhavam na mesquinhez da
vida terrena… Era o Joaquim Pedro que me ajudava a encontrar o rumo dos meus
pensamentos, que não podiam, sob pena de traição, ser como os de todos outros.
Com que entusiasmo falávamos dos problemas apostólicos do
nosso tempo! Tinha às vezes de corrigir o seu pessimismo, mas nunca de activar
a sua vontade de trabalhar, porque o desânimo foi coisa que não lhe conheci.
Que admira, pois, que chore de saudade?
E duas lágrimas, sempre a amizade as perdoou.
Sim, amigo, bem sei que agradeces mais as orações com que
procurarmos sufragar a tua alma diante de Deus, esse Deus que procuraste servir
com tanto amor, mas cuja santidade está tão cima da nossa miséria, que não
duvido, não, caro amigo, não duvido de que precises de sufrágios, tu que sempre
me edificaste, tu que sempte foste para mim um testemunho de Fé. Por isso mesmo
sei que preferes as orações às lágrimas.
Mas deixa-me que chore com todos os que sentem a tua falta,
porque também eu a sinto, e com que agudeza, Deus meu!
Bem sabes que me verei sozinho, que me custará passar sem
ti, onde me ajudaste tantas vezes a encontrar-me como padre!
Oxalá
possas dar-nos a todos a ajuda que, tendo em vista a obra que realizaste neste
mundo, nos parece legítimo esperar da tua intercessão junto de Deus. porque a m
orte de um apóstolo é sempre fonte de vida e de força para a Igreja deste mundo