domingo, 6 de outubro de 2013



Pontes ou bocas de abismo?

É apenas um convite a quem me ler, para meditar um pouco sobre duas travessias, nas quais, em qualquer dos casos, mesmo se por motivos aparentemente diferentes, se fugia de, correndo para. E trágico é que tanto num caso como no outro, sem que se tenha chegado ao destino, deixou-se incólume tudo quanto se relacionava com o ponto de partida.
Isto, apesar dos rios de “lágrima de crocodilo”, que, na mente de quem pensa um pouco, não fazem mais do que aumentar o sentimento de vergonha, que, para não ceder demasiado ao pessimismo, é de pouca gente.
Veio-me à ideia a tragédia da ponte das barcas, no Porto, naquele fatídico dia 29 de Março de 1809. E isso, não propriamente para pedir de novo a condenação dos responsáveis por todas aquelas mortes, mas sobretudo para vermos como se destrói a humanidade quando não são as pessoas que interessam, mas as ambições mesquinhas dos detentores do poder, seja ele económico, político ou militar… e quantas vezes também religioso.
Na Antiguidade, apesar dos pesares, como diria um homem de Deus dos nossos dias, tanto os rios como os mares, serviam de ligação entre os povos; hoje os povos sentem-se esmagados pelo uso que desses espaços faz a tecnologia ao serviço das ambições referidas.
E assim como me comove o grito do Papa que fala de uma vergonha, revolta-me a expressão daquele chefe de estado, se referiu à tragédia de Lampedusa como "um massacre de inocentes". Não porque isso não seja verdade; mas porque ele, como tantos chefes de estado desta triste Europa, se cala sistematicamente perante os outros massacres de inocentes, que, bem vistas as coisas, têm a mesma raiz.


sábado, 5 de outubro de 2013

As fronteiras da vergonha


De repente, não sei bem porquê, veio-me à mente a parábola do rico avarento e do pobre Lázaro, maravilhoso texto do evangelista da misericórdia divina, que recolhe a resposta de Jesus aos que o censuravam pelo carinho que mostrava pelos mais débeis, e não há maior debilidade que a provocada pelo pecado. Resposta que é também um aviso solene aos Seus discípulos, não vão eles pensar que alguém será excluído do Reino, por razões que não tenham a ver coma rejeição dessa misericórdia.  
São já muitos milhares os que morrem à porta do palácio onde se banqueteiam os ricos, que, quanto mais ricos, mais medo têm de quem possa vir incomodar o seu festim esbanjador.
Por isso, assim como deixam morrer à porta os pobres que vêm de longe – clandestinamente, porque os não deixam viajar com a dignidade a que têm direito – matam, antes que possam gritar, os que, com igual direito, querem sentar-se à mesa da família: e estes não são apenas alguns milhares, são milhões, todos os anos.
Nos países ricos, pasme-se!
Porque os pobres sempre conseguem partilhar uma migalha de pão, quando não acontece que os ricos até essa migalha lhes negam.

O Papa, perante a tragédia de Lampedusa, gritou, num tom que me comoveu: É uma vergonha!
Uma vergonha que quase ninguém terá assumido como sua.
Por isso senti uma dor parecida com a que experimentei quando vi Bento XVI chorar diante das vítimas da pedofilia.
E também nessa altura fiquei a pensar se terá havido muita gente a sentir que, afinal, todos tínhamos razão para chorar.
Chorar, não só porque se trata de uma enorme tristeza, mas porque todos somos, de uma maneira ou de outra, responsáveis por este mundo.

É uma vergonha, diz o Papa.
E eu, convencido de que o âmbito dessa vergonha sai muito do mar de Lampedusa, acrescento: é verdadeiramente uma vergonha tudo o que se está a passar nesta zona do globo, que acumula grande parte da riqueza material que Deus quis para todos, mas que perdeu o rumo, porque ficou sem os valores que fizeram a sua grandeza.


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Diálogo impossível?

A palavra diálogo foi desenvolvida de modo especial nos meados do século passado, sobretudo por acção do que se chamou euro - comunismo – teses doutrinais de Gramsci, na Itália, e Garaudy, na França. Adoptada depois e introduzida em muitos textos de origem teológica e eclesiástica, a palavra foi de tal modo utilizada ao longo de toda a segunda metade do século XX, que quase poderíamos falar de uma ideologia do diálogo, com todas as implicações, positivas e negativas, que acompanham qualquer ideologia.
O pior é que com frequência se fala de diálogo onde talvez a expressão não tenha verdadeira coerência.
São inúmeros os casos. Hoje falamos apenas de um:

Ao terminar o Ano da Fé, qual o significado real do teimoso discurso sobre a necessidade do diálogo da Igreja com o mundo?
Um discurso tão teimoso, que tem criado inúmeros complexos – de inferioridade, por parte dos cristãos, de superioridade, por parte dos que gostam de dizer mal de nós – pululando por aí, em todos os meios de comunicação social, falada e escrita.

Não serão infundadas as suspeitas de que há aqui algum equívoco: ou não se tem uma noção correcta de Igreja, ou o mundo a que se faz referência não será propriamente aquele que o Senhor quer salvar.
Sim, porque este é uma realidade presente em todos nós; e, num certo sentido, nós não somos mais Igreja do que mundo.
Poderíamos até dizer que só somos Igreja na medida em que somos mundo: o mundo, o universo, aquilo a que os gregos chamaram, umas vezes “cosmos”, outras “aeuus”, e os romanos chamavam, segundo os contextos; “uniuersus” ou “saeculum”.
O que, apesar de tantos discursos equívocos, desde a mais remota antiguidade, inclui necessariamente o homem, que é a coroa da criação.
Assim, como amigos, colaboradores e ministros de Cristo – classificação que nos deixou o próprio São Paulo – não podemos, nem sequer por questões metodológicas, prescindir da nossa condição intramundana.
Diríamos antes que a salvação que Jesus nos confiou, enquanto Igreja, tem de penetrar a realidade que somos, enquanto mundo.
Aliás, como seríamos Igreja, se não fôssemos o mundo a que se destina a salvação.
Não se dará o caso de estarmos a lutar pelo impossível?
Porque, de facto, queremos dialogar como se não nos confundíssemos, num certo sentido, pelo menos, com o outro, o tremo desse diálogo.

Talvez os nossos discursos sobre o tal diálogo não estejam isentos de um certo dualismo que, ao longo dos séculos, sobretudo os últimos, tem feito muito mal ao mundo e à Igreja, a nós todos, por conseguinte.
E não vale a pena seleccionar os campos desta acção devastadora, porque ela atinge-os todos.
Como, no entanto, não podemos reflectir sobre todos eles ao mesmo tempo, vamos abordar alguns dos que nos parece mais urgente falar, porque a respeito deles, por várias razões, se multiplicam as ideias que, pelo menos aparentemente, têm como base esse dualismo.
Será por exemplo grande parte do que se diz acerca da família, a respeito da qual precisamente se fala a todo o momento, da necessidade de intensificar o diálogo da Igreja com o mundo.
Que Igreja?
E que mundo?


terça-feira, 1 de outubro de 2013

Vai para um ano que não escrevo nada nesta página. Tenho resistido a fazê-lo, por muitas razões, que neste momento, não vêm ao caso. As pressões têm aumentado ultimamente; e há dias, sem que nada o fizesse esperar, veio-me ter às mãos um texto que escrevi há quarenta e três, que esquecera já, mas que me pareceu justo publicar: de homenagem em homenagem, o Joaquim Pedro foi das pessoas a quem muito fiquei a dever e que continuo a recordar com enorme saudade e gratidão. Vai texto como saiu na altura: servirá de pórtico às reflexões que aqui for lançando nesta fase de luta contra a preguiça crepuscular.

Duas Lágrimas de Saudade

Sexta-feira Santa!
Uma tarde fria, com o céu carregado de nuvens, a ameaçar chuva.
Na igreja terminara há pouco, a celebração litúrgica comemorativa da Morte do Senhor.
Seria a melancolia do momento, a saudade, que crescera com a ausência dos fiéis no templo, ou antes a força de um desejo que recalcava há três dias?
Sim! Há três dias!
Essa fora um atarde de Primavera!
Primavera no céu, tristeza nas almas, que, apesar do conforto da Fé, não podiam assistir indiferentes à última despedida de quem partia deixando um vazio profundo em todos nós.
Eu assistira antes, tomara parte, de olhos húmidos, em todo o funeral e ficara com o desejo de voltar ali, sozinho, longe dos olhares indiscretos de quem não compreende as razões profundas das almas, a terminar a conversa que, poucos dias antes, ficara incompleta, na sacristia da igreja, porque nenhum de nós suspeitava de que seria o nosso último encontro… Se até ficou combinado eu passar lá por casa a provar um pouco do novo!…
Como é fugidia a vida!
Bem o compreendeu ele!
Por isso, sim, por isso o Senhor o chamou quando todos nós o queríamos ainda mais preso a este mundo.
Era tão novo ainda!
Não! Quem trabalhou assim pelo Reino de Deus, sacrificando tudo, quando era preciso servir os outros, não pode dizer-se novo!
Novos nos consideramos nós, que passamos a vida sem produzir obra que se veja, Daí que nos pareça sempre cedo demais para morrer.
Não era este o caso do Joaquim Pedro, que por um motivo apenas se agarrava à vida: parecia-lhe que estava ainda por terminar a sua obra de esposo e pai; mas nunca o vimos considerar-se novo para morrer; e foi com um sorriso, um sorriso amargo, mas um sorriso, apesar de tudo, que me disse, nessa conversa que não terminámos, que agora só lhe faltava a última viagem – a do cemitério.
E não demorou muito a fazê-la, não, pobre amigo.
Mas fê-la de um modo que podemos considerar prémio das suas virtudes, dos eu amor ao bem dos outros.
Eu fiquei com o desejo de voltar aqui, para continuar, junto das leivas que cobrem o seu corpo, aquele diálogo interrompido; mas os meus pensamentos andam desordenados, e não posso senão monologar com as minhas recordações:
Era ainda criança quando aos meus ouvidos soou pela primeira vez o nome de Joaquim Pedro: falava-se então dos problemas a sua sucessão na direcção da JAC, pois até aí a “Juventude”, como então se dizia, confundira-se com um punhado de rapazes, de que o Joaquim Pedro fora o guia e o chefe incontestado.
Encontrei-o mais tarde nas lides apostólicas relacionadas com a comunidade onde ambos fomos criados para a Fé; e a admiração converteu-se em amizade, uma amizade que cresceu sempre, porque me foi fácil ver que tinha diante de mim um homem, com defeitos como todos os outros, mas com uma alma de apóstolo, como muito poucos.
E é esta alma de apóstolo que não poderei nunca esquecer, que me deixa uma saudade indestrutível, porque vai sendo  cada vez mais difícil encontra-las assim… desinteressadas, humildes (quantas vezes a humildade do Joaquim Pedro me comoveu!), e prontas a tudo… de uma prontidão que chegou mesmo, em certas ocasiões de que só agora vejo o carácter providencial, a sacudir a minha alma sacerdotal, à beira de se acomodar a situações fáceis.
Não, não poderei nunca esquecer essa conversa íntima, num quarto da Rua Bayard, em Gargan, a falar de problemas que estavam longe geograficamente, que estavam mesmo longe do meu coração, eu viajava como simples estudante, mas ele, ele, o emigrado gasto pelo trabalho, que acabava de chegar de Paris, onde fora encontrar-se com os padres da missão, soube aproximar-se de mim… e eu não pude já como simples estudante!...
E depois, aquelas longas viagens de muitas horas, uma de dias, confundidos com milhares de passageiros que mergulhavam na mesquinhez da vida terrena… Era o Joaquim Pedro que me ajudava a encontrar o rumo dos meus pensamentos, que não podiam, sob pena de traição, ser como os de todos outros.
Com que entusiasmo falávamos dos problemas apostólicos do nosso tempo! Tinha às vezes de corrigir o seu pessimismo, mas nunca de activar a sua vontade de trabalhar, porque o desânimo foi coisa que não lhe conheci.
Que admira, pois, que chore de saudade?
E duas lágrimas, sempre a amizade as perdoou.
Sim, amigo, bem sei que agradeces mais as orações com que procurarmos sufragar a tua alma diante de Deus, esse Deus que procuraste servir com tanto amor, mas cuja santidade está tão cima da nossa miséria, que não duvido, não, caro amigo, não duvido de que precises de sufrágios, tu que sempre me edificaste, tu que sempte foste para mim um testemunho de Fé. Por isso mesmo sei que preferes as orações às lágrimas.
Mas deixa-me que chore com todos os que sentem a tua falta, porque também eu a sinto, e com que agudeza, Deus meu!
Bem sabes que me verei sozinho, que me custará passar sem ti, onde me ajudaste tantas vezes a encontrar-me como padre!
Oxalá possas dar-nos a todos a ajuda que, tendo em vista a obra que realizaste neste mundo, nos parece legítimo esperar da tua intercessão junto de Deus. porque a m orte de um apóstolo é sempre fonte de vida e de força para a Igreja deste mundo