terça-feira, 1 de outubro de 2013

Vai para um ano que não escrevo nada nesta página. Tenho resistido a fazê-lo, por muitas razões, que neste momento, não vêm ao caso. As pressões têm aumentado ultimamente; e há dias, sem que nada o fizesse esperar, veio-me ter às mãos um texto que escrevi há quarenta e três, que esquecera já, mas que me pareceu justo publicar: de homenagem em homenagem, o Joaquim Pedro foi das pessoas a quem muito fiquei a dever e que continuo a recordar com enorme saudade e gratidão. Vai texto como saiu na altura: servirá de pórtico às reflexões que aqui for lançando nesta fase de luta contra a preguiça crepuscular.

Duas Lágrimas de Saudade

Sexta-feira Santa!
Uma tarde fria, com o céu carregado de nuvens, a ameaçar chuva.
Na igreja terminara há pouco, a celebração litúrgica comemorativa da Morte do Senhor.
Seria a melancolia do momento, a saudade, que crescera com a ausência dos fiéis no templo, ou antes a força de um desejo que recalcava há três dias?
Sim! Há três dias!
Essa fora um atarde de Primavera!
Primavera no céu, tristeza nas almas, que, apesar do conforto da Fé, não podiam assistir indiferentes à última despedida de quem partia deixando um vazio profundo em todos nós.
Eu assistira antes, tomara parte, de olhos húmidos, em todo o funeral e ficara com o desejo de voltar ali, sozinho, longe dos olhares indiscretos de quem não compreende as razões profundas das almas, a terminar a conversa que, poucos dias antes, ficara incompleta, na sacristia da igreja, porque nenhum de nós suspeitava de que seria o nosso último encontro… Se até ficou combinado eu passar lá por casa a provar um pouco do novo!…
Como é fugidia a vida!
Bem o compreendeu ele!
Por isso, sim, por isso o Senhor o chamou quando todos nós o queríamos ainda mais preso a este mundo.
Era tão novo ainda!
Não! Quem trabalhou assim pelo Reino de Deus, sacrificando tudo, quando era preciso servir os outros, não pode dizer-se novo!
Novos nos consideramos nós, que passamos a vida sem produzir obra que se veja, Daí que nos pareça sempre cedo demais para morrer.
Não era este o caso do Joaquim Pedro, que por um motivo apenas se agarrava à vida: parecia-lhe que estava ainda por terminar a sua obra de esposo e pai; mas nunca o vimos considerar-se novo para morrer; e foi com um sorriso, um sorriso amargo, mas um sorriso, apesar de tudo, que me disse, nessa conversa que não terminámos, que agora só lhe faltava a última viagem – a do cemitério.
E não demorou muito a fazê-la, não, pobre amigo.
Mas fê-la de um modo que podemos considerar prémio das suas virtudes, dos eu amor ao bem dos outros.
Eu fiquei com o desejo de voltar aqui, para continuar, junto das leivas que cobrem o seu corpo, aquele diálogo interrompido; mas os meus pensamentos andam desordenados, e não posso senão monologar com as minhas recordações:
Era ainda criança quando aos meus ouvidos soou pela primeira vez o nome de Joaquim Pedro: falava-se então dos problemas a sua sucessão na direcção da JAC, pois até aí a “Juventude”, como então se dizia, confundira-se com um punhado de rapazes, de que o Joaquim Pedro fora o guia e o chefe incontestado.
Encontrei-o mais tarde nas lides apostólicas relacionadas com a comunidade onde ambos fomos criados para a Fé; e a admiração converteu-se em amizade, uma amizade que cresceu sempre, porque me foi fácil ver que tinha diante de mim um homem, com defeitos como todos os outros, mas com uma alma de apóstolo, como muito poucos.
E é esta alma de apóstolo que não poderei nunca esquecer, que me deixa uma saudade indestrutível, porque vai sendo  cada vez mais difícil encontra-las assim… desinteressadas, humildes (quantas vezes a humildade do Joaquim Pedro me comoveu!), e prontas a tudo… de uma prontidão que chegou mesmo, em certas ocasiões de que só agora vejo o carácter providencial, a sacudir a minha alma sacerdotal, à beira de se acomodar a situações fáceis.
Não, não poderei nunca esquecer essa conversa íntima, num quarto da Rua Bayard, em Gargan, a falar de problemas que estavam longe geograficamente, que estavam mesmo longe do meu coração, eu viajava como simples estudante, mas ele, ele, o emigrado gasto pelo trabalho, que acabava de chegar de Paris, onde fora encontrar-se com os padres da missão, soube aproximar-se de mim… e eu não pude já como simples estudante!...
E depois, aquelas longas viagens de muitas horas, uma de dias, confundidos com milhares de passageiros que mergulhavam na mesquinhez da vida terrena… Era o Joaquim Pedro que me ajudava a encontrar o rumo dos meus pensamentos, que não podiam, sob pena de traição, ser como os de todos outros.
Com que entusiasmo falávamos dos problemas apostólicos do nosso tempo! Tinha às vezes de corrigir o seu pessimismo, mas nunca de activar a sua vontade de trabalhar, porque o desânimo foi coisa que não lhe conheci.
Que admira, pois, que chore de saudade?
E duas lágrimas, sempre a amizade as perdoou.
Sim, amigo, bem sei que agradeces mais as orações com que procurarmos sufragar a tua alma diante de Deus, esse Deus que procuraste servir com tanto amor, mas cuja santidade está tão cima da nossa miséria, que não duvido, não, caro amigo, não duvido de que precises de sufrágios, tu que sempre me edificaste, tu que sempte foste para mim um testemunho de Fé. Por isso mesmo sei que preferes as orações às lágrimas.
Mas deixa-me que chore com todos os que sentem a tua falta, porque também eu a sinto, e com que agudeza, Deus meu!
Bem sabes que me verei sozinho, que me custará passar sem ti, onde me ajudaste tantas vezes a encontrar-me como padre!
Oxalá possas dar-nos a todos a ajuda que, tendo em vista a obra que realizaste neste mundo, nos parece legítimo esperar da tua intercessão junto de Deus. porque a m orte de um apóstolo é sempre fonte de vida e de força para a Igreja deste mundo

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Depois da Depressão.1




Au diable la tiédeur!

É o título de um livrinho recente, tão recente, que ainda cheira à tinta das máquinas… passe a hipérbole. Tem este livrinho como título completo: Au diable la tiédeur! Suivi d’un Petit traité de l’essentiel.
É seu autor um jovem sacerdote cujo inconformismo parece estar na origem de um extraordinário movimento de recuperação da vida cristã e da prática religiosa, numa paróquia da diocese e cidade de Marselha, que, como acontece por toda a parte, na França e na Europa ocidental, parecia ter-se resignado à progressiva desertificação dos espaços de culto e celebração comunitária da Fé.

Au diable la tiédeur!
Difícil de traduzir em bom português, mas perfeitamente inteligível para quem, como o P. Michel-Marie Zanotti-Sorkine, está cansado das águas mornas em que se mergulha constantemente entre nós, deixando que se agrave a depressão do cristianismo, pelo menos na sua vertente missionária, contida nas incontornáveis palavras do Senhor, no chamado Sermão da montanha: Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há-de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro, e assim alumia a todos os que estão em casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu (Mt 5, 13-16).
Assim brilhe a vossa luz diante dos homens!
Não sei se resistirei por muito tempo à tentação de transcrever para aqui algum dos inúmeros passos deste livrinho, que, além de serem profundamente, diria, quase escandalosamente actuais, são fortemente mobilizadores; constituem agudíssimo acicate contra o desleixo e o abandono, tristes sintomas da falta de esperança que desmobiliza pessoas e comunidades.
A minha resistência, que não prometo levar até ao fim, funda-se no facto de o autor falar directamente, pelo menos na maior parte dos casos, para os seus colegas sacerdotes. Ainda que, como é evidente, tudo diga respeito a todos.
Hoje há quem fale muito da recessão económica, num país em que o pessimismo dos discursos – alguns não o são tanto, felizmente – acaba sempre por agravar a situação.
O pior de tudo é que se trata de uma mentalidade com perigosos reflexos em sectores, muitos sectores mesmo, com grande responsabilidade no interior da comunidade cristã.
E, como sinal de que quebrarei muitas vezes a tal resistência, termino com uma citação que traduzo livremente: Os problemas da sociedade têm a sua importância; se tens respostas, oferece-as; mas lembra-te que o essencial se encontra para além do tempo. Fala, pois, com coerência (página 48).
Não perder mais tempo a contar o que está à vista de todos, a fim de sobrar tempo e espaço para descobrir o que se esconde para além de ambos.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

RENASCER

Uns dizem que sou preguiçoso, outros que tenho deixado nascer bolor por toda a parte. Aqui vai uma pequena mensagem para todos saibam que estou vivo e com vontade de escrever. Só não sei ao certo se valerá a pena.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

POST MORTEM



Morrer para saberem quem sou
(página de um diário fragmentado e soluçante)

Como há meses que não escrevo nada neste blog, vou pedir licença para fixar nele dois ou três dos muitos pensamentos que me têm provocado os comentários surgidos na imprensa e na televisão, a propósito do falecimento de alguns personagens da nossa praça.
Não vou discutir os méritos ou deméritos das pessoas, nem espantar-me com aquilo que já se ouvia na minha aldeia, quando eu ainda era criança: que para alguém ser bom, basta morrer.
Queria apenas falar de um exemplo das últimas semanas, que, digo-o com uma certa vergonha, mas sem rodeios, constituiu uma enorme surpresa para o poente da minha jornada histórica.
Falo de Maria José Nogueira Pinto!
Foram anos seguidos a ouvir falar dela, das suas intervenções na vida política, partidária e não partidária; em discursos cuja coerência nem sempre era fácil de descobrir, sobretudo quando os outros, os que navegavam em águas diferentes… não é que não estivessem de acordo: simplesmente tinham medo de parecer apoiantes de quem discordava da sua ideologia.
Fico contente por ver que muitos, após a sua morte, vieram a terreiro falar das suas qualidades de mulher – esposa e mãe – de cidadã; “cristã empenhada” chamou-lhe um seu companheiro de luta juvenil, mas que ideologicamente sempre esteve do outro lado.
É bonito e, de certo modo, reconfortante.
Mas não deixa de ser triste que tenhamos de morrer para descobrirem a generosidade da nossa luta: às vezes vem-nos a tentação de pensar que, afinal, também nisto pode hver muita hipocrisia.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

ESPAÇO SCHENGEN

E agora?

Todos sabemos que, na Europa, o regime de fronteiras e passaportes nasceu da desconfiança e dos ressentimentos gerados pela Grande Guerra, que seria bom fazer voltar à memória das gentes pelos horrores que a acompanharam, na alvorada de um século que o cientificismo da véspera havia anunciado como o grande século da convivência humana, sem Deus, nem ideologias que nos dividissem.
Foi preciso que viesse outro cataclismo bélico, para que os homens compreendessem que, com religião ou sem ela, só com a abolição de fronteiras – todo o tipo de fronteiras, a começar pelas do egoísmo – seria possível chegar a essa harmonia.
Bem o entenderam os fundadores da União Europeia.
Os fundadores; porque nas últimas décadas, parece que os seus continuadores se vão afastando cada vez mais daquele belíssimo projecto inicial.
No entanto, poderíamos contar entre um dos passos no sentido da realização desse projecto, a abolição das fronteiras terrestres, criando assim o chamado espaço Schengen.
Claro que isto não trouxe só vantagens, até porque há sempre quem procure aproveitar-se da generosidade dos outros para cultivar o seu egoísmo. Tudo tem o seu preço; e nas relações humanas, quando nos recusamos a perder, não fazemos mais do que criar barreiras.
Aparecem agora alguns países a propor a suspensão do tal espaço Schengen, e há quem tenha já decidido a reabertura das fronteiras.
Com argumentos razoáveis, diríamos mesmo excelentes. Mas que escondem mal o egoísmo larvar que, pode dizer-se também, foi a mola real da adesão de muitos desses países a um espaço que lhes oferecia inegáveis vantagens económicas.
Pessoalmente, o que me inquieta é que é precisamente este egoísmo, mascarado de patriotismo, que alimenta o ressurgir dos partidos mais radicais da direita anti-democrática.
Com máscaras não se vai além do Carnaval, que, bem vistas as coisas, deixa sempre um travo amargo na boca de quem o joga.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Atrás e atrasado

Durante décadas ouvi dizer aos analistas de vários quadrantes que Portugal era um país atrasado. Maneira de falar que me irritava, sobretudo quando a detectava na linguagem dos estrangeiros que tinham de nós um conhecimento pouco mais que livresco; ou quando me chegava com uma carga ideológica que dificultava a descoberta do núcleo de verdade que realmente continha.
E foi a partir daqui que comecei a aprender que esse núcleo de verdade era também manipulado por muitos daqueles que, consciente ou inconscientemente, haviam criado as fontes desse atraso, ou herdado as ideias desses criadores.
Portugal um país atrasado!
Vejam bem: um país que, com pouco mais de um milhão de habitantes, conseguiu assombrar o mundo, ao qual abriu as rotas do universo, deixando-lhe novos mundos, na geografia e na cultura. Em cuja língua se escreveu a maior e mais bela expressão do pensamento que reflecte sobre o significado transcendente da história humana. Que é também a língua na qual, entre a ficção e a realidade, se exprime o carácter relativo de todas as culturas. Um país que, no século dezassete alimentou a Universidade de maior prestígio na Europa…
Este é um país atrasado.
Todos os sentimos, e só nos amargura que sejam as ideologias herdeiras do pensamento que nos decapitou culturalmente, as que mais barulho fazem por causa disso. E amargura-nos sobretudo porque é em nome da fuga a esse atraso que nos põem cada vez mais atrás.
Foi desse erro que nasceu o famigerado “acordo ortográfico”, que é só ortográfico apenas para quem não abre os olhos ou não tem qualquer sensibilidade para os fenómenos linguísticos.
Porque, quer se queira, quer não, como foi concebido e está a ser posto em prática, este novo modo de escrever, além de algumas confusões inevitáveis, vai dar um golpe de morte a muitas mudanças que caracterizavam o português de Portugal, que não era mais português que o do Brasil, mas também não era menos. Era diferente, e assim devia continuar a sua própria história. Não é verdade que as diferenças das partes enriquecem o todo?
Ninguém me tira da cabeça que, com este “acordo”, do ponto de vista da língua, recuámos pelo menos dois séculos.
Será por esta psicose do recuo que se tem introduzido um atrás, sempre que se usa o verbo haver para exprimir a ideia de tempo passado?
Dizer um ano atrás, como os ingleses, a year ago, ou os italianos, un ano indietro, parece-me correctíssimo. Mas dizer que há um ano atrás… ronda pelo absurdo. E porque este absurdo se repete por aí a cada passo, as pessoas vão-se esquecendo de que o verbo haver, quando significa existir, é impessoal: "havia lá muitas pessoas", "haverá ainda alguns procedimentos obrigatórios…", formas correctas, infelizmente a rarear sobretudo nos meios mais “cultos”, onde aparece com frequência: haviam lá muitas pessoas, haverão ainda alguns procedimentos obrigatórios.
Será mero acaso?

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Há crises e crises

As raízes da diferença Estava para aqui, como quem sacode moscas importunas, tentando afastar os pensamentos despoletados por aquela reportagem televisiva, vinda das praias do sul da Espanha, quando me veio parar às mãos um texto, que não está assinado, mas que talvez não precise disso, precisamente porque muita gente pensará do mesmo modo, ainda que não saiba como, ou talvez não tenha coragem de exprimi-lo. Crises. A primeira de que me lembro, foi logo a seguir à guerra: Não havia BCE, nem FEEF, nem FMI. Havia um governante que não queria aumentar a despesa, porque sabia que não podia pagar. E não aumentava a receita porque nos sabia pobres. Tudo era muito caro, e chegou um momento em que, mesmo caro, não havia no mercado. Éramos todos pobres, mas honrados e solidários: Graças a Deus e à prevenção de meus pais, nunca experimentei o tormento da fome; mas vi-o no rosto de muitos companheiros de rua, com os quais partilhava o pedaço de broa que eles olhavam nas minhas mãos, quando saía de casa. Era pouco para todos, mas podíamos assim ter em comum, jogos e alegria. Ninguém vivia acima das suas posses, e estávamos atentos para que a nenhum dos nossos vizinhos faltasse o essencial. Repare-se que não estou a fantasiar. Pode ser que não tenha sido assim em todo o país; mas foi o que eu próprio vi e experimentei na minha aldeia. Claro que não se sonhava ainda com uma Páscoa passada no Algarve e muito menos com umas férias nas praias do sul da Espanha. E não morreu ninguém com fome nem desesperado. As outras duas crises vieram muito anos depois: Já havia FMI, mas não se falava ainda de nada que se parecesse com BCE ou FEEF. E sobretudo não tinha havido a ilusão do dinheiro fácil, e a comunicação social era menos ávida do consumismo de leitores e ouvintes. Depois, os políticos, governantes ou não, estavam longe de imitar aquele chefe egípcio da década de sessenta do século passado que um seu émulo do mundo muçulmano comparava com a máquina de um comboio que consumia todo o gás a apitar. Parece pouco, mas faz muita diferença. Tanta que desta vez o comboio não arranca… ou talvez venha a arrancar, depois dos empurrões vindos de fora; mas não temos a certeza se chega ao termo da viagem, ou se virá a perder-se em algum trágico descarrilamento.