segunda-feira, 5 de maio de 2014
REFLEXÃO E PARTILHA
Como a última postagem me saiu muito mal, vou prurar repetila
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Reflexão e partilha
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Tem este blogue o título genérico de Reflexões Crepusculares: desde há uns tempos, têm sido tantas, essas reflexões, que acabei por não escrever nenhuma; confesso que, algumas vezes, por preguiça, como diz um dos meus sobrinhos; mas foi também pela dificuldade da escolha, já que me parecia que o facto de serem crepusculares lhes imprimia mais responsabilidade.
Agora, não sei por que impulso, talvez por um certo borbulhar da seiva primaveril, que tem também o seu quê de canto do cisne, ainda que pouco romântico e muito desafinado, sinto desejo de partilhar algumas reflexões: assim, como quem procura na escrita estímulo e disciplina para que as ideias se desenvolvam com certa ordem.
Não me atrai a polémica: direi serenamente o que penso, mas aceito opiniões contrárias e tenho disponibilidade para esclarecer algum ponto mais obscuro, respondendo, se for caso disso, a quem me ler e tiver a amabilidade de comentar, sobretudo se discorda e pede que desfaça alguma confusão.
Não escolho os temas, porque me parece que podemos partilhar qualquer reflexão que nasça do amor à verdade.
I
Negar a partir de uma dúvida?
Como estamos em plenas festas pascais, dou em tom de partilha, uma reflexão com elas relacionada, partindo de um curto poema de Miguel Torga:
Dúvida
O céptico sorriso da paisagem
Quando, funéreo, o sino
Avisa o mundo de que vai cerrar-se
O véu de trevas da Semana Santa.
A seiva é tanta
A borbulhar nas vinhas,
Voam com tal volúpia as andorinhas
Rente ao chão semeado,
É tão fresco, ligeiro e perfumado
O ar que se respira,
Que tem de ser mentira
O negro pesadelo anunciado.
( Diário IX: S. Martinho de Anta, 12 de Abril de 1960)
Tem de ser mentira
O negro pesadelo anunciado.
E tem mesmo! Melhor, seria mesmo mentira, caso se tratasse, de facto, de um negro pesadelo anunciado.
Não sabemos que sino, nem que toque ouviu o poeta de São Martinho de Anta, para lhe chamar funéreo e dizer que avisa o mundo de que vai cerrar-se o véu de trevas da Semana Santa.
Pois a Semana Santa, sobretudo o Tríduo Pascal, como agora se chama, é, segundo a fé dos crentes que os celebram, a maior explosão de luz e vida que podemos encontrar em qualquer liturgia, cristã, judaica ou pagã.
Talvez Miguel Torga tenha conhecido a prática anterior a 1951, quando a Liturgia Romana, por razões de ordem prática – já que os ritos de quinta, sexta e sábado tinham de realizar-se de manhã – antecipava o Ofício de Leituras, então designado por Matinas, bem como o Ofício de Louvor, designado por Laudes. Ao conjunto chamava-se Ofício de Trevas, porque se realizava à noite e terminava com uma simulação das trevas que cobriram a terra no momento da morte de Cristo (Cf. Lc 23,44-45; Mc 15,33; Mt 27,45).
No entanto, dizer que vai cerrar-se/o véu de trevas da Semana Santa, depois das reformas implementadas por Pio XII, assumidas e completadas, segundo o espírito do Vaticano II, por Paulo VI, é, no mínimo inadequado.
Acontece, porém, que não é meu intuito criticar Miguel Torga, um poeta que parece conhecer como nenhum outro o discurso da fé, que o utiliza com especial beleza estética, sem, no entanto, conseguir atinar com ela.
Também não sabemos em que medida a procurou de facto: sabemos apenas que toda a sua poesia fala de um desfasamento doloroso entre o seu desejo de luz e a inadequação das janelas que se lhe abrem.
Ora é precisamente para falar do drama de uma cultura que se conserva estruturalmente cristã, mas que perdeu por completo, ou quase, os conteúdos da fé cristã, que reinicio estas reflexões, partindo da proximidade das festas pascais.
Falei de explosão de luz e de vida, relativamente à Páscoa cristã, que, neste aspecto, não desdiz em nada da Páscoa Judaica, que, como é sabido, celebra a libertação do Povo Hebreu da escravatura do Egipto, com ritos recuperados de antigas celebrações primaveris dos pastores que viviam paredes meias com o deserto.
O que acontece é que, segundo uma prática de séculos, talvez milénios, largamente documentada no Antigo Testamento, esses ritos, no contexto da Aliança, adquirem um sentido religioso muito especial e tornam-se proféticos, porque anunciam, não já a libertação de um povo escravizado por outro, mas da humanidade inteira esmagada pelo pecado e suas sequelas.
Na Páscoa cristã não há qualquer memória de terrorismo selectivo, como teria sido o caso da matança dos primogénitos dos egípcios, para que o Faraó deixasse partir os Hebreus.
E a travessia do Mar Vermelho toma-se como símbolo, mais um entre tantos outros, do Baptismo,
Mas celebra-se a memória da imolação do Primogénito de toda a criação, figurado no cordeiro, cujo sangue assinalava as casas dos Hebreus, para que nelas não entrasse o anjo exterminador.
Jesus Cristo é, pois, o Cordeiro imolado, que morrendo e ressuscitando liberta os homens da tirania da morte e do pecado, que a anuncia.
Haverá modo mais autêntico de cantar com a natureza os sorrisos da Primavera?
Mas temos de ser honestos.
De facto, para quem vê de fora, e não precisa de estar muito longe, nada disto se torna claro na maior parte dos espectáculos de rua – chamemos-lhes assim, para não os confundirmos com a liturgia genuína – que nas nossas cidades e aldeias assinalam a Páscoa.
Assim, talvez tenhamos de dar razão a Miguel Torga e a tantos outros que não conhecem da Pascoa cristã senão um ou outro pormenor folclórico, além do sentimentalismo profundamente deslocado da Sexta-feira Santa.
Num texto polémico, que cito sem nenhuma intenção de retomar batalhas inúteis, alguém escreveu há relativamente pouco tempo, que a Igreja não celebrava senão o nascimento e a morte de Cristo.
Numa conversa de amigos, um deles afirmou com certa graça que essa pessoa passa distraída trezentos e sessenta e três dias do ano.
De facto, a Igreja nunca celebra a morte, mas a vida. E tem muita importância saber que o nascimento de Cristo, em sentido próprio, não se celebra senão no Ocidente, e, mesmo assim, só a partir de meados do século IV. No centro de todas as celebrações está a Páscoa, que, tanto no Oriente como no Ocidente, foi sempre vivida como o início da Nova Criação. Dos tempos novos.
Honestamente, porém, dado o que a maioria dos cristãos mostra a quem está de fora, compreende-se esse tipo de comentários.
Mas também não ficaria mal aos autores desses comentários procurar com mais honestidade o que é necessário, como e onde se deve procurar.
domingo, 4 de maio de 2014
Reflexão e partilha
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Tem este blogue o título genérico de Reflexões Crepusculares: desde há uns tempos, têm sido tantas, essas reflexões, que acabei por não escrever nenhuma; confesso que, algumas vezes, por preguiça, como diz um dos meus sobrinhos; mas foi também pela dificuldade da escolha, já que me parecia que o facto de serem crepusculares lhes imprimia mais responsabilidade.
Agora, não sei por que impulso, talvez por um certo borbulhar da seiva primaveril, que tem também o seu quê de canto do cisne, ainda que pouco romântico e muito desafinado, sinto desejo de partilhar algumas reflexões: assim, como quem procura na escrita estímulo e disciplina para que as ideias se desenvolvam com certa ordem.
Não me atrai a polémica: direi serenamente o que penso, mas aceito opiniões contrárias e tenho disponibilidade para esclarecer algum ponto mais obscuro, respondendo, se for caso disso, a quem me ler e tiver a amabilidade de comentar, sobretudo se discorda e pede que desfaça alguma confusão.
Não escolho os temas, porque me parece que podemos partilhar qualquer reflexão que nasça do amor à verdade.
I
Negar a partir de uma dúvida?
Como estamos em plenas festas pascais, dou em tom de partilha, uma reflexão com elas relacionada, partindo de um curto poema de Miguel Torga:
Dúvida
O céptico sorriso da paisagem
Quando, funéreo, o sino
Avisa o mundo de que vai cerrar-se
O véu de trevas da Semana Santa.
A seiva é tanta
A borbulhar nas vinhas,
Voam com tal volúpia as andorinhas
Rente ao chão semeado,
É tão fresco, ligeiro e perfumado
O ar que se respira,
Que tem de ser mentira
O negro pesadelo anunciado.
( Diário IX: S. Martinho de Anta, 12 de Abril de 1960)
Tem de ser mentira
O negro pesadelo anunciado.
E tem mesmo! Melhor, seria mesmo mentira, caso se tratasse, de facto, de um negro pesadelo anunciado.
Não sabemos que sino, nem que toque ouviu o poeta de São Martinho de Anta, para lhe chamar funéreo e dizer que avisa o mundo de que vai cerrar-se o véu de trevas da Semana Santa.
Pois a Semana Santa, sobretudo o Tríduo Pascal, como agora se chama, é, segundo a fé dos crentes que os celebram, a maior explosão de luz e vida que podemos encontrar em qualquer liturgia, cristã, judaica ou pagã.
Talvez Miguel Torga tenha conhecido a prática anterior a 1951, quando a Liturgia Romana, por razões de ordem prática – já que os ritos de quinta, sexta e sábado tinham de realizar-se de manhã – antecipava o Ofício de Leituras, então designado por Matinas, bem como o Ofício de Louvor, designado por Laudes. Ao conjunto chamava-se Ofício de Trevas, porque se realizava à noite e terminava com uma simulação das trevas que cobriram a terra no momento da morte de Cristo (Cf. Lc 23,44-45; Mc 15,33; Mt 27,45).
No entanto, dizer que vai cerrar-se/o véu de trevas da Semana Santa, depois das reformas implementadas por Pio XII, assumidas e completadas, segundo o espírito do Vaticano II, por Paulo VI, é, no mínimo inadequado.
Acontece, porém, que não é meu intuito criticar Miguel Torga, um poeta que parece conhecer como nenhum outro o discurso da fé, que o utiliza com especial beleza estética, sem, no entanto, conseguir atinar com ela.
Também não sabemos em que medida a procurou de facto: sabemos apenas que toda a sua poesia fala de um desfasamento doloroso entre o seu desejo de luz e a inadequação das janelas que se lhe abrem.
Ora é precisamente para falar do drama de uma cultura que se conserva estruturalmente cristã, mas que perdeu por completo, ou quase, os conteúdos da fé cristã, que reinicio estas reflexões, partindo da proximidade das festas pascais.
Falei de explosão de luz e de vida, relativamente à Páscoa cristã, que, neste aspecto, não desdiz em nada da Páscoa Judaica, que, como é sabido, celebra a libertação do Povo Hebreu da escravatura do Egipto, com ritos recuperados de antigas celebrações primaveris dos pastores que viviam paredes meias com o deserto.
O que acontece é que, segundo uma prática de séculos, talvez milénios, largamente documentada no Antigo Testamento, esses ritos, no contexto da Aliança, adquirem um sentido religioso muito especial e tornam-se proféticos, porque anunciam, não já a libertação de um povo escravizado por outro, mas da humanidade inteira esmagada pelo pecado e suas sequelas.
Na Páscoa cristã não há qualquer memória de terrorismo selectivo, como teria sido o caso da matança dos primogénitos dos egípcios, para que o Faraó deixasse partir os Hebreus.
E a travessia do Mar Vermelho toma-se como símbolo, mais um entre tantos outros, do Baptismo,
Mas celebra-se a memória da imolação do Primogénito de toda a criação, figurado no cordeiro, cujo sangue assinalava as casas dos Hebreus, para que nelas não entrasse o anjo exterminador.
Jesus Cristo é, pois, o Cordeiro imolado, que morrendo e ressuscitando liberta os homens da tirania da morte e do pecado, que a anuncia.
Haverá modo mais autêntico de cantar com a natureza os sorrisos da Primavera?
Mas temos de ser honestos.
De facto, para quem vê de fora, e não precisa de estar muito longe, nada disto se torna claro na maior parte dos espectáculos de rua – chamemos-lhes assim, para não os confundirmos com a liturgia genuína – que nas nossas cidades e aldeias assinalam a Páscoa.
Assim, talvez tenhamos de dar razão a Miguel Torga e a tantos outros que não conhecem da Pascoa cristã senão um ou outro pormenor folclórico, além do sentimentalismo profundamente deslocado da Sexta-feira Santa.
Num texto polémico, que cito sem nenhuma intenção de retomar batalhas inúteis, alguém escreveu há relativamente pouco tempo, que a Igreja não celebrava senão o nascimento e a morte de Cristo.
Numa conversa de amigos, um deles afirmou com certa graça que essa pessoa passa distraída trezentos e sessenta e três dias do ano.
De facto, a Igreja nunca celebra a morte, mas a vida. E tem muita importância saber que o nascimento de Cristo, em sentido próprio, não se celebra senão no Ocidente, e, mesmo assim, só a partir de meados do século IV. No centro de todas as celebrações está a Páscoa, que, tanto no Oriente como no Ocidente, foi sempre vivida como o início da Nova Criação. Dos tempos novos.
Honestamente, porém, dado o que a maioria dos cristãos mostra a quem está de fora, compreende-se esse tipo de comentários.
Mas também não ficaria mal aos autores desses comentários procurar com mais honestidade o que é necessário, como e onde se deve procurar.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Bater com a mão no peito dos outros
Bater com a mão no peito dos outros
Há dias, ao ler, segundo as normas litúrgicas, o texto de 2Samuel, 12, 1-17, veio-me à ideia a afirmação de uma grande figura da Igreja que, na altura do PREC, se referiu à moda de acusar pessoas e instituições como uma manifestação quase patológica do bater com a mão no peito dos outros. Assim se substituía a humildade do “mea culpa” tradicional pelo ódio acusatório do “tua culpa” revolucionário.
Não é bem a mesma coisa; mas toda aquela metáfora do rei encharcado em crimes, que se enfurece contra o abuso singular de um dos seus súbditos, colhe grande significado na nossa época.
Os meios de comunicação - em formato digital, em imagem, em papel, impresso e manuscrito -, os salões, as praças e as ruas, todos os espaços de encontro de pessoas, extravasam de protestos.
Ainda bem, responde de forma unilateral o nosso instinto democrático: as pessoas têm o direito de se manifestar, e ninguém discute isso. Nem isso tem nada de condenável. Claro, falamos aqui de manifestações e não de gestos violentos ou de incitamento à violência.
Portanto, ainda bem que as pessoas se manifestam: isso significa que vivemos em democracia.
Então, que tem a ver a resposta de David a Natan com tudo isto?
Porque se classifica de metáfora a narração do livro de Samuel?
Sem nos metermos em questões de exegese bíblica, para a qual não tenho tempo nem competência, para mim é evidente que a mensagem contida no texto, ao qual não falta uma certa ironia, mais do que transmitir dados biográficos de um determinado personagem, procura fazer-nos ver como a nossa indignação perante os erros dos outros cresce precisamente na medida em que são ultrapassados pelos que não queremos reconhecer em nós.
Aliás, os protestos são muitas vezes uma forma de abafar a consciência, de esquecer as próprias responsabilidades exagerando a dos outros.
Deixo apenas dois exemplos da esquizofrenia que neste momento esmaga a sociedade portuguesa: um vai em forma de pergunta, outro refere-se a um facto recente.
Por exemplo, já alguém pensou seriamente no que pode significar, para a análise dos aleijões da sociedade portuguesa, a dança das audiências nos canais televisivos?
E quando, numa tarde de domingo, em pleno inverno, as estradas se enchem de carros, a caminho do mar, gastando combustível e perturbando o trânsito, só para ver as ondas… não terá isto algo a ver com as raízes de uma crise de que ninguém se sente culpado?
Somos como David, até ao momento em que, sem olhar para si, queria castigar severamente o poderoso que roubara a ovelhinha ao pobre. Falta-nos ser como ele, quando se deu conta de que o ladrão era ele.
Quantas coisas a emendar na nossa vida, para que os protestos não sejam apenas um vício sazonal!
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
A fé e a memória
Há
vários anos, não me lembro quantos, um colega protestava, em tom de pergunta,
contra os muitos processos de beatificação e canonização: Isso para que serve?
Perguntava ele.
Como
a pergunta vinha em tom de censura, não gastei tempo a dar qualquer resposta;
nem esse é o meu propósito neste momento, até porque também a ela responde de
certo modo o que diz o Papa no nº13 da Evangelii
Gaudium.
Aí,
entre outras coisas, pode ler-se, já no último parágrafo: O crente é, fundamentalmente, «uma pessoa que faz memória».
Reparemos bem, que o Papa não diz que o crente
é uma pessoa de memória, que se lembra disto ou daquilo, mas «uma pessoa que faz memória».
De
facto, “fazer memória” é muito mais do que lembrar-se, ter memória.
Na
maior pare das festas e comemorações que se realizam por aí, a lembrar pessoas
e acontecimentos do passado, não se faz mais do que tentar avivar a memória,
que o tempo vai apagando, reduzindo os contornos emocionais que ajudam a
mantê-la viva, durante um certo tempo, até que tudo se apague.
No
cristianismo, como em todas as religiões e culturas, também há muitas memórias
destas. Umas que se apagam totalmente, outras que são absorvidas, com mais ou
menos prejuízo da realidade, pelas tradições culturais. E aí sofrem o
tratamento de tudo o que é tradição e não passa de tradição.
Às
vezes fica-se apenas com o discurso. Outras nem isso. E quando fica o discurso,
acontece com frequência alterarem-se de tal modo os conteúdos, que já não temos
nada de cristão por onde lhes pegar.
É
a lei da história: não vale a pena lutar contra a inevitabilidade das transformações
culturais que nascem da vida das sociedades.
Mas
na fé cristã, há coisas que não podem reduzir-se a simples tradições, sob pena
de ficarmos com uma fé sem conteúdos, reduzindo o cristianismo a um fenómeno
puramente cultural, sujeito aos efeitos do tempo, que inevitavelmente consome
tudo o que dele depende.
Basta
pensarmos nos sacramentos, que, bem vistas as coisas são o que há de
especificamente cristão, já que, pelo menos do ponto de vista formal, tudo o
mais se encontra em qualquer outra religião.
De
facto, acreditar que determinados ritos, realizados em certas condições, pela
comunidade crente, tornam presentes – sem os repetirem, diminuírem ou enriquecerem
- os gestos salvíficos de Jesus Cristo, Fundador e Fundamento de toda a
estrutura sacramental da Igreja, é algo tão específico da fé cristã, que, por
mais que procuremos, não encontramos nenhuma outra atitude religiosa que se lhe
iguale.
Daqui
podemos concluir que, quando se trata de cristãos, a distinção entre
praticantes e não praticantes é pelo menos equívoca e pode carecer totalmente
de sentido:
O
Papa diz que o crente é,
fundamentalmente, «uma pessoa que faz memória».
E
como faz ele memória senão através dos sacramentos?
De
facto Jesus, no momento da instituição da Eucaristia, depois de afirmar que
aquele pão e aquele vinho já não é pão nem vinho, mas o Seu Corpo e o Seu
Sangue, entregues pela salvação da humanidade, ordena aos Discípulos:
Fazei isto em
memória de mim!
Isto
é, como que concretizando o gesto pelo qual, no Jordão, deu início aos ritos
que, pela acção do Espírito Santo, fazem de realidades cósmicas elementos da
história da salvação, ordena que se faça memória permanente desta sua imolação
no seio da comunidade por Ele fundada.
Fazer
memória, no sentido bíblico e teológico, que é aquele em que o Papa emprega a
expressão, é o que acontece, sempre que a comunidade cristã se reúne para
celebrar, comunitariamente e com ritos adequados a sua fé comum.
Em
face disto, se, como diz o Papa, o crente
é, fundamentalmente, «uma pessoa que faz memória», que sentido terá um
cristão, sobretudo um católico, dizer-se não praticante?
Pode legitimamente perguntar-se-lhe, quando se diz, por exemplo, católico não praticante, se não estará a confundir a adesão ao catolicismo com uma atitude puramente cultural, ou, o que seria ainda pior, com a pertença a uma associação de cuja vida e estatutos aproveita o que mais lhe interessa.
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