terça-feira, 15 de março de 2011

ATÉ AO FIM


Até ao fim.

Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo (João: 13, 1).
Não sei se este até ao extremo traduz bem o “eis ta ésghata”, do grego. O que me parece é que o tradutor está demasiado inquieto com a cena de Jesus lavando os pés aos discípulos e não entende todo o alcance da afirmação de João, que quer levar-nos até ao mais íntimo do coração do Mestre, do seu amor pelo Pai, cuja vontade era a nossa salvação, da absoluta inteireza com que levou até ao fim a lealdade para com aqueles a quem chamava amigos.
Já não vos chamo servos, visto que um servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai. Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça; e assim, tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome Ele vo-lo concederá (João: 15,15-16).
E Jesus quer que os seus discípulos percebam o sentido desta amizade, que tem de existir também entre eles, com a mesma dinâmica e as mesmas exigências… até ao fim, no caminho e na meta: a meta será e ressurreição, porque quando se morre verdadeiramente por amor, Deus não permitirá que a morte tenha a última palavra.
O que, aliás, acontecerá também com o ódio: para o ser humano, a morte nunca será a última palavra, porque ou se morre por amor e então ressuscitar-se-á para a vida eterna, ou se morre mergulhado no ódio e então ressuscitar-se-á para morte eterna.
Se calhar, os teólogos não exploraram ainda suficientemente este mistério do amor e do ódio, no momento supremo de se concluir a nossa história pessoal.

A minha é uma reflexão crepuscular: unindo a tarde com a madrugada, tentado outro sentido para a noite, sem atravessar a qual não se chega de um dia ao outro dia.
Hoje fala-se muito de objectivos; é bom que se dê importância à recomendação que nos vem já dos Romanos, inultrapassáveis mestres de prática política: in omnibus respice finem. O fim, como consequência, mas sobretudo como objectivo a alcançar.
É claro que, numa ética minimamente correcta, os fins não justificam os meios.
Mas também é verdade que quando se não sabe para onde se caminha, é impossível saber como se deve caminhar.
Os fins não justificam os meios, mas os meios, por muito correctos que sejam, só por acaso levam aos fins.
Ou eu me engano muito ou uma das razões que nos fazem andar todos à rasca, está na ausência de objectivos universais que permitam uma mobilização universal, ainda que com meios diferentes.
Mas como podem estabelecer-se fins universais onde não há valores universais? Andamos todos a correr atrás do imediato, que fascina mais do que mobiliza, desarmoniza mais do que pacifica.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Dores da memória


Entre Leptis Magna a Trípoli

Cartago, 7 de Março de 203: Roma, que, pelas armas e a diplomacia, transformara o Mediterrâneo no mare nostrum com que havia séculos sonhavam as grandes famílias donde provinham magistrados e legionários, sentia-se, no entanto, ameaçada por um inimigo interno que parecia crescer e fortalecer-se, precisamente na medida em que o combatia.
Mário e Sila, depois de Cipião, haviam conseguido que o Margrebe, apesar do carácter indomável dos Berberes, percebesse finalmente quanto tinha a ganhar com a sua inserção no mundo romano; e aqueles que, como acontecera com Jugurta, ambicionavam promoções pessoais, imitando os colonos vindos do outro lado do mar, aderiam de armas e bagagens à guerrilha do cursus honorum, por onde poderiam chegar à suprema magistratura da Nação.
Fora o que acontecera com Lúcio Septímio Severo, que, nascido na cidade vizinha de Leptis Magna, 57 anos antes, há dez que era o senhor supremo de todo o Império, cujas fronteiras se alargavam permanentemente, graças às vitórias dos soldados – as legiões haviam mudado de nome e estatuto – sob o comando deste berbere, que tinha finalmente nas mãos os instrumentos necessários a uma resposta cabal ao que na sua mente gerava a mistura da pertinácia – Pertinax, aliás era um dos seus nomes de família - dos margrebinos, com a ambição romana.
7 de Março de 203, Septímio Severo, 57 anos de idade e 10 de Império, impotente, como os seus antecessores perante o avanço do cristianismo, como eles ordena que sejam perseguidos até à morte os aderentes a essa nova fé.
Em Cartago, ali, a dois passos da cidade natal do Imperador, que a transformara na grande concorrente das outras cidades africanas do Império, duas mulheres, uma das quais mãe de família, pagavam com a vida a coragem com que haviam defendido a sua liberdade de consciência.
Leptis Magna chama-se hoje Trípoli, como Cartago se pode identificar com Tunes.
Os tiranos mudaram de nome, mas não perderam nada em crueldade; o que talvez seja novo é a hipocrisia dos poderosos que fingem defender os valores constantemente ameaçados, mais por esta hipocrisia do que por aquela crueldade.

segunda-feira, 7 de março de 2011

A Paixão do Crepúsculo

Aqui está mais uma palavra polissémica que o facto de ser usada quase num único sentido fez com que, ao ouvi-la, a maioria dos portugueses pense o contrário do que me vem à cabeça, neste momentro, quando falo da paixão do crepúsculo.
Porque, de facto, aquilo que sempre me seduziu foram as madrugadas: de tal modo que um dia fiquei de pé toda a noite - nesse tempo as aldeias não tinham iluminação pública, e eu vivia na aldeia - para ver como era realmente o amanhecer. E o que experimentei, não poderei mais esquecê-lo. Devo, no entanto, confessar que se criei um novo Blog foi sobretudo a pensar no colorido os anos passados trazem ao que tenho de ver e experimentar na tarde da vida.
Para que nem tudo se reduza a impertinências de velho, procurarei misturar os dois principais campos semânticos da palavra crepúsculo: a tarde e madrugada esmagando a noite para que o dia seja mais longo.
Um abraço para todos os que quiserem ler-me e tiverem a bondade de fazer os seus comentários, que, mesmo quando negativos, serão sempre instrutivos.