quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
Meditação da tarde
No dia seguinte, que era o dia a seguir ao da Preparação, os sumos sacerdotes e os fariseus reuniram-se com Pilatos e disseram-lhe: «Senhor, lembrámo-nos de que aquele impostor disse, ainda em vida: ‘Três dias depois hei-de ressuscitar.’ Por isso, ordena que o sepulcro seja guardado até ao terceiro dia, não venham os discípulos roubá-lo e dizer ao povo: ‘Ressuscitou dos mortos.’ E seria a última impostura pior do que a primeira.» Pilatos respondeu-lhes: «Tendes guardas. Ide e guardai-o como entenderdes.» E eles foram pôr o sepulcro em segurança, selando a pedra e confiando-o à vigilância dos guardas (Mt 27, 62-66).
Leio e fico a pensar: passa-me pela mente um sem-número de coisas que parecem não ter nada a ver com isto, Mas quando reparo no sentimento daqueles homens que, quase envergonhados dos seus medos, se retiram do sepulcro, não consigo evitar uma reflexão:
Os inimigos do Senhor fazem tudo para que Ele desapareça e a sua recordação não dure mais que a memória de um acidente no percurso da própria história, que não estão dispostos a alterar, pelo menos na linha que parecia ser a indicada pelas palavras e os gestos “daquele sedutor”, como lhe chamam.
E foi uma pena, porque o medo continua a dominar os seus espíritos. Pior: agarrados à ideia de que aquele condenado, morto e sepultado, não passava de um sedutor, tudo o que depois aconteceu com a sua marca, mesmo quando encerrava desvios muito graves do caminho por Ele traçado, era mau, contrário à Lei divina.
Estamos ainda sob os ecos das armas que mataram em Paris e dos gritos que se ergueram, do que se disse e continua a dizer-se, em defesa da liberdade de expressão.
Na minha mente, mais do que estes clamores da rua, perfila-se o Mestre, que no Jardim sua sangue. E isto dois dias apenas depois de ter chorado sobre a sua cidade, que não era apenas a Jerusalém do monte Sião: seriam todas as cidades santas da Terra e da História. Seria eu próprio, minado por tantas contradições, a braços com o desejo de comprar barata a paz que me negam as paixões, as minhas e as dos outros.
Voltando a este último versículo do capitulo 27 de São Mateus: resisto com muita dificuldade à tentação de ver aqui o prenúncio, se não mesmo a raiz das tragédias que ao longo da História marcaram as relações cristãos / judeus, primeiro, depois, cristãos/judeus/muçulmanos.
Há quem, para simplificar as coisas e se dispensar de uma reflexão mais aprofundada e responsável, se limite a dizer que se trata de ódio de irmãos.
Somos, de facto, irmãos; mas não conseguimos ver que o somos e porque é que o somos. O que acontece principalmente porque muito cedo e com grande velocidade se introduzem no campo, que devia ser comum, elementos de ordem cultural que, uma vez tomados como valores, se não absolutos, como essenciais, se transformam em barreiras dificilmente ultrapassáveis.
Pior ainda, quando surgem estruturas, que podem ser apenas étnicas ou culturais, mas se agravam quando são também políticas: sem perdermos muito tempo em grandes análises, estamos em crer que facilitaria muito o diálogo entre cristãos, judeus e muçulmanos, se as pessoas fossem capazes de aprender, primeiro o que é realmente essencial na sua fé, e depois, numa atitude de profundo respeito pelo outro, em fala e escuta, ensinar e aprender esse tal núcleo essencial de cada um.
Sem esconder as mágoas deixadas pela história, mas não admitindo que elas condicionem de qualquer modo esse diálogo de irmãos. Porque judeus, cristãos e muçulmanos, do ponto de vista da fé, são realmente irmãos, filhos de Abraão. Aliás, nem judeus, nem cristãos nem muçulmanos, podem considerar-se povo de Deus senão na medida em que são filhos da fé de Abraão.
Claro, como diria São Paulo, Teresa Benedita da Cruz e o Cardeal Lustiger, para falar apenas de três grandes figuras de judeus cristãos, qualquer caminhada séria na vivência desta fraternidade tem de desembocar em Jesus Cristo, que é o centro, o ponto de partida e o ponto de chegada de toda a história da Salvação.
Mas talvez se esteja a cometer um erro enorme quando, de qualquer dos lados, se tenta cortar etapas: porque todos, judeus, muçulmanos e cristãos, nenhum chega a Cristo sem uma conversão permanente, um esforço sem pausas para ir cada vez mais fundo no caminho da própria fé. Um esforço que, em qualquer dos casos, tem um duplo movimento: abandono do secundário e aprofundamento do essencial.
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