sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Os absurdos do igualitarismo
0.
Como norma, todos os ismos nomeiam uma ideologia; e qualquer ideologia, como tal, não passa de um sistema fechado, que não admite matizes nem excepções.
Aristóteles dizia que a igualdade perante a lei era a forma mais iníqua de governo.
Não vamos aqui discutir os argumentos do grande filósofo grego, ao qual, quer se queira quer não, devemos em parte o que hoje somos como pessoas de cultura.
Mas podemos dizer que o igualitarismo, finalmente transformado em ideologia obsessiva, depois de ter invertido o mito de Prometeu, está a levar ao paroxismo as tentativas do homem, no sentido de anular diferenças essenciais à harmonia da natureza e ao relacionamento do ser humano com ela.
Nos meus tempos de criança e adolescente, ouvi muitas vezes os adultos, sobretudo pais de vários filhos, explicar as diferenças entre eles, espalmando a mão e dizendo: temos cinco dedos na mesma mão e são todos diferentes.
Cinco dedos diferentes, que nunca ninguém de bom senso pensou em tornar iguais, ou cortando uns ou acrescentado outros: eram todos dedos da mesma mão, com a mesma dignidade, mas com funções diferentes, segundo os nosso hábitos culturais e civilizacionais.
Não imagino o que diriam hoje, se vissem o que estamos a fazer à nossa sociedade, os revolucionários que, nos finais de século XVIII, salvaram as torres de Notre-Dame da fúria de quem quis deitá-las abaixo sob o pretexto de que negavam os princípios da Revolução: liberdade, igualdade, fraternidade.
A ideologia igualitarista, com todas as suas ramificações, algumas tão subtis, que às vezes nem os mais atentos se dão conta delas, está a fazer um mal terrível até no interior de fortalezas que pareciam há pouco inexpugnáveis.
Foi pensando nisso que decidi ocupar parte dos meus ócios oferecendo a quem me queira ler e comentar, se achar oportuno, mesmo que seja para contestar, algumas das reflexões que os estragos dessa ideologia me têm inspirado.
Confesso: têm inevitavelmente a marca da idade; por isso as incluo nesta série de REFLEXÔES CREPUSCULARES.
Ainda que, do ponto de vista da etimologia, crepuscular tanto possa referir-se à tarde como à madrugada, aqui é o entardecer que dá o tom e produz a dinâmica.
E vai a primeira, partindo de um texto do Novo Testamento.
1.
Será que devemos pôr-nos todos a coxear?
Líamos há pouco, na liturgia da missa, estas palavras da Carta aos Hebreus:
Por isso, levantai as vossas mãos fatigadas e os vossos joelhos direitos, para que o coxo não se desvie, mas antes seja curado (Hebr 12, 13-13).
O contexto é a parte final da Carta, que, depois de sublinhar as diferenças entre o sacerdócio levítico e sacerdócio de Cristo, exorta longamente os cristãos a não se deixarem vencer pelas dificuldades, sobretudo as perseguições, que lhes vinham de todo o lado: dos pagãos, que os não distinguiam dos judeus, e destes, que os consideravam como renegados.
Ainda que não seja evidente o sentido exacto da parábola, pelo contexto percebe-se que o autor sagrado tem em mente o efeito terapêutico da fidelidade de uns sobre a fraqueza de outros, que acusam especiais debilidades na luta por essa fidelidade.
Extrapolando um pouco, diríamos que a pastoral subjacente ao texto da Carta, sem esquecer a ajuda a prestar aos mais débeis, se organiza na perspectiva da promoção dos mais fortes, no sentido de tirar da sua fidelidade ajuda e estímulo para os outros.
Todos achamos normal que assim seja: tratar bem do são, para que o doente, não só se entusiasme, mas encontre novas forças, num ambiente melhorado, onde a exigência se transforma em amparo e força estimulante.
O que já não é tão evidente é que essa seja a mentalidade reinante na actualidade, mesmo em instâncias que deviam ter mais presentes as palavras do texto sagrado.
Às vezes temos a impressão de que, perante quem coxeia, nos recomendam que nos ponhamos todos a coxear, para que, dizem, ninguém se sinta discriminado.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
Meditação da tarde
No dia seguinte, que era o dia a seguir ao da Preparação, os sumos sacerdotes e os fariseus reuniram-se com Pilatos e disseram-lhe: «Senhor, lembrámo-nos de que aquele impostor disse, ainda em vida: ‘Três dias depois hei-de ressuscitar.’ Por isso, ordena que o sepulcro seja guardado até ao terceiro dia, não venham os discípulos roubá-lo e dizer ao povo: ‘Ressuscitou dos mortos.’ E seria a última impostura pior do que a primeira.» Pilatos respondeu-lhes: «Tendes guardas. Ide e guardai-o como entenderdes.» E eles foram pôr o sepulcro em segurança, selando a pedra e confiando-o à vigilância dos guardas (Mt 27, 62-66).
Leio e fico a pensar: passa-me pela mente um sem-número de coisas que parecem não ter nada a ver com isto, Mas quando reparo no sentimento daqueles homens que, quase envergonhados dos seus medos, se retiram do sepulcro, não consigo evitar uma reflexão:
Os inimigos do Senhor fazem tudo para que Ele desapareça e a sua recordação não dure mais que a memória de um acidente no percurso da própria história, que não estão dispostos a alterar, pelo menos na linha que parecia ser a indicada pelas palavras e os gestos “daquele sedutor”, como lhe chamam.
E foi uma pena, porque o medo continua a dominar os seus espíritos. Pior: agarrados à ideia de que aquele condenado, morto e sepultado, não passava de um sedutor, tudo o que depois aconteceu com a sua marca, mesmo quando encerrava desvios muito graves do caminho por Ele traçado, era mau, contrário à Lei divina.
Estamos ainda sob os ecos das armas que mataram em Paris e dos gritos que se ergueram, do que se disse e continua a dizer-se, em defesa da liberdade de expressão.
Na minha mente, mais do que estes clamores da rua, perfila-se o Mestre, que no Jardim sua sangue. E isto dois dias apenas depois de ter chorado sobre a sua cidade, que não era apenas a Jerusalém do monte Sião: seriam todas as cidades santas da Terra e da História. Seria eu próprio, minado por tantas contradições, a braços com o desejo de comprar barata a paz que me negam as paixões, as minhas e as dos outros.
Voltando a este último versículo do capitulo 27 de São Mateus: resisto com muita dificuldade à tentação de ver aqui o prenúncio, se não mesmo a raiz das tragédias que ao longo da História marcaram as relações cristãos / judeus, primeiro, depois, cristãos/judeus/muçulmanos.
Há quem, para simplificar as coisas e se dispensar de uma reflexão mais aprofundada e responsável, se limite a dizer que se trata de ódio de irmãos.
Somos, de facto, irmãos; mas não conseguimos ver que o somos e porque é que o somos. O que acontece principalmente porque muito cedo e com grande velocidade se introduzem no campo, que devia ser comum, elementos de ordem cultural que, uma vez tomados como valores, se não absolutos, como essenciais, se transformam em barreiras dificilmente ultrapassáveis.
Pior ainda, quando surgem estruturas, que podem ser apenas étnicas ou culturais, mas se agravam quando são também políticas: sem perdermos muito tempo em grandes análises, estamos em crer que facilitaria muito o diálogo entre cristãos, judeus e muçulmanos, se as pessoas fossem capazes de aprender, primeiro o que é realmente essencial na sua fé, e depois, numa atitude de profundo respeito pelo outro, em fala e escuta, ensinar e aprender esse tal núcleo essencial de cada um.
Sem esconder as mágoas deixadas pela história, mas não admitindo que elas condicionem de qualquer modo esse diálogo de irmãos. Porque judeus, cristãos e muçulmanos, do ponto de vista da fé, são realmente irmãos, filhos de Abraão. Aliás, nem judeus, nem cristãos nem muçulmanos, podem considerar-se povo de Deus senão na medida em que são filhos da fé de Abraão.
Claro, como diria São Paulo, Teresa Benedita da Cruz e o Cardeal Lustiger, para falar apenas de três grandes figuras de judeus cristãos, qualquer caminhada séria na vivência desta fraternidade tem de desembocar em Jesus Cristo, que é o centro, o ponto de partida e o ponto de chegada de toda a história da Salvação.
Mas talvez se esteja a cometer um erro enorme quando, de qualquer dos lados, se tenta cortar etapas: porque todos, judeus, muçulmanos e cristãos, nenhum chega a Cristo sem uma conversão permanente, um esforço sem pausas para ir cada vez mais fundo no caminho da própria fé. Um esforço que, em qualquer dos casos, tem um duplo movimento: abandono do secundário e aprofundamento do essencial.
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