quinta-feira, 12 de maio de 2011

ESPAÇO SCHENGEN

E agora?

Todos sabemos que, na Europa, o regime de fronteiras e passaportes nasceu da desconfiança e dos ressentimentos gerados pela Grande Guerra, que seria bom fazer voltar à memória das gentes pelos horrores que a acompanharam, na alvorada de um século que o cientificismo da véspera havia anunciado como o grande século da convivência humana, sem Deus, nem ideologias que nos dividissem.
Foi preciso que viesse outro cataclismo bélico, para que os homens compreendessem que, com religião ou sem ela, só com a abolição de fronteiras – todo o tipo de fronteiras, a começar pelas do egoísmo – seria possível chegar a essa harmonia.
Bem o entenderam os fundadores da União Europeia.
Os fundadores; porque nas últimas décadas, parece que os seus continuadores se vão afastando cada vez mais daquele belíssimo projecto inicial.
No entanto, poderíamos contar entre um dos passos no sentido da realização desse projecto, a abolição das fronteiras terrestres, criando assim o chamado espaço Schengen.
Claro que isto não trouxe só vantagens, até porque há sempre quem procure aproveitar-se da generosidade dos outros para cultivar o seu egoísmo. Tudo tem o seu preço; e nas relações humanas, quando nos recusamos a perder, não fazemos mais do que criar barreiras.
Aparecem agora alguns países a propor a suspensão do tal espaço Schengen, e há quem tenha já decidido a reabertura das fronteiras.
Com argumentos razoáveis, diríamos mesmo excelentes. Mas que escondem mal o egoísmo larvar que, pode dizer-se também, foi a mola real da adesão de muitos desses países a um espaço que lhes oferecia inegáveis vantagens económicas.
Pessoalmente, o que me inquieta é que é precisamente este egoísmo, mascarado de patriotismo, que alimenta o ressurgir dos partidos mais radicais da direita anti-democrática.
Com máscaras não se vai além do Carnaval, que, bem vistas as coisas, deixa sempre um travo amargo na boca de quem o joga.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Atrás e atrasado

Durante décadas ouvi dizer aos analistas de vários quadrantes que Portugal era um país atrasado. Maneira de falar que me irritava, sobretudo quando a detectava na linguagem dos estrangeiros que tinham de nós um conhecimento pouco mais que livresco; ou quando me chegava com uma carga ideológica que dificultava a descoberta do núcleo de verdade que realmente continha.
E foi a partir daqui que comecei a aprender que esse núcleo de verdade era também manipulado por muitos daqueles que, consciente ou inconscientemente, haviam criado as fontes desse atraso, ou herdado as ideias desses criadores.
Portugal um país atrasado!
Vejam bem: um país que, com pouco mais de um milhão de habitantes, conseguiu assombrar o mundo, ao qual abriu as rotas do universo, deixando-lhe novos mundos, na geografia e na cultura. Em cuja língua se escreveu a maior e mais bela expressão do pensamento que reflecte sobre o significado transcendente da história humana. Que é também a língua na qual, entre a ficção e a realidade, se exprime o carácter relativo de todas as culturas. Um país que, no século dezassete alimentou a Universidade de maior prestígio na Europa…
Este é um país atrasado.
Todos os sentimos, e só nos amargura que sejam as ideologias herdeiras do pensamento que nos decapitou culturalmente, as que mais barulho fazem por causa disso. E amargura-nos sobretudo porque é em nome da fuga a esse atraso que nos põem cada vez mais atrás.
Foi desse erro que nasceu o famigerado “acordo ortográfico”, que é só ortográfico apenas para quem não abre os olhos ou não tem qualquer sensibilidade para os fenómenos linguísticos.
Porque, quer se queira, quer não, como foi concebido e está a ser posto em prática, este novo modo de escrever, além de algumas confusões inevitáveis, vai dar um golpe de morte a muitas mudanças que caracterizavam o português de Portugal, que não era mais português que o do Brasil, mas também não era menos. Era diferente, e assim devia continuar a sua própria história. Não é verdade que as diferenças das partes enriquecem o todo?
Ninguém me tira da cabeça que, com este “acordo”, do ponto de vista da língua, recuámos pelo menos dois séculos.
Será por esta psicose do recuo que se tem introduzido um atrás, sempre que se usa o verbo haver para exprimir a ideia de tempo passado?
Dizer um ano atrás, como os ingleses, a year ago, ou os italianos, un ano indietro, parece-me correctíssimo. Mas dizer que há um ano atrás… ronda pelo absurdo. E porque este absurdo se repete por aí a cada passo, as pessoas vão-se esquecendo de que o verbo haver, quando significa existir, é impessoal: "havia lá muitas pessoas", "haverá ainda alguns procedimentos obrigatórios…", formas correctas, infelizmente a rarear sobretudo nos meios mais “cultos”, onde aparece com frequência: haviam lá muitas pessoas, haverão ainda alguns procedimentos obrigatórios.
Será mero acaso?