A fé e a memória
Há
vários anos, não me lembro quantos, um colega protestava, em tom de pergunta,
contra os muitos processos de beatificação e canonização: Isso para que serve?
Perguntava ele.
Como
a pergunta vinha em tom de censura, não gastei tempo a dar qualquer resposta;
nem esse é o meu propósito neste momento, até porque também a ela responde de
certo modo o que diz o Papa no nº13 da Evangelii
Gaudium.
Aí,
entre outras coisas, pode ler-se, já no último parágrafo: O crente é, fundamentalmente, «uma pessoa que faz memória».
Reparemos bem, que o Papa não diz que o crente
é uma pessoa de memória, que se lembra disto ou daquilo, mas «uma pessoa que faz memória».
De
facto, “fazer memória” é muito mais do que lembrar-se, ter memória.
Na
maior pare das festas e comemorações que se realizam por aí, a lembrar pessoas
e acontecimentos do passado, não se faz mais do que tentar avivar a memória,
que o tempo vai apagando, reduzindo os contornos emocionais que ajudam a
mantê-la viva, durante um certo tempo, até que tudo se apague.
No
cristianismo, como em todas as religiões e culturas, também há muitas memórias
destas. Umas que se apagam totalmente, outras que são absorvidas, com mais ou
menos prejuízo da realidade, pelas tradições culturais. E aí sofrem o
tratamento de tudo o que é tradição e não passa de tradição.
Às
vezes fica-se apenas com o discurso. Outras nem isso. E quando fica o discurso,
acontece com frequência alterarem-se de tal modo os conteúdos, que já não temos
nada de cristão por onde lhes pegar.
É
a lei da história: não vale a pena lutar contra a inevitabilidade das transformações
culturais que nascem da vida das sociedades.
Mas
na fé cristã, há coisas que não podem reduzir-se a simples tradições, sob pena
de ficarmos com uma fé sem conteúdos, reduzindo o cristianismo a um fenómeno
puramente cultural, sujeito aos efeitos do tempo, que inevitavelmente consome
tudo o que dele depende.
Basta
pensarmos nos sacramentos, que, bem vistas as coisas são o que há de
especificamente cristão, já que, pelo menos do ponto de vista formal, tudo o
mais se encontra em qualquer outra religião.
De
facto, acreditar que determinados ritos, realizados em certas condições, pela
comunidade crente, tornam presentes – sem os repetirem, diminuírem ou enriquecerem
- os gestos salvíficos de Jesus Cristo, Fundador e Fundamento de toda a
estrutura sacramental da Igreja, é algo tão específico da fé cristã, que, por
mais que procuremos, não encontramos nenhuma outra atitude religiosa que se lhe
iguale.
Daqui
podemos concluir que, quando se trata de cristãos, a distinção entre
praticantes e não praticantes é pelo menos equívoca e pode carecer totalmente
de sentido:
O
Papa diz que o crente é,
fundamentalmente, «uma pessoa que faz memória».
E
como faz ele memória senão através dos sacramentos?
De
facto Jesus, no momento da instituição da Eucaristia, depois de afirmar que
aquele pão e aquele vinho já não é pão nem vinho, mas o Seu Corpo e o Seu
Sangue, entregues pela salvação da humanidade, ordena aos Discípulos:
Fazei isto em
memória de mim!
Isto
é, como que concretizando o gesto pelo qual, no Jordão, deu início aos ritos
que, pela acção do Espírito Santo, fazem de realidades cósmicas elementos da
história da salvação, ordena que se faça memória permanente desta sua imolação
no seio da comunidade por Ele fundada.
Fazer
memória, no sentido bíblico e teológico, que é aquele em que o Papa emprega a
expressão, é o que acontece, sempre que a comunidade cristã se reúne para
celebrar, comunitariamente e com ritos adequados a sua fé comum.
Em
face disto, se, como diz o Papa, o crente
é, fundamentalmente, «uma pessoa que faz memória», que sentido terá um
cristão, sobretudo um católico, dizer-se não praticante?
Pode legitimamente perguntar-se-lhe, quando se diz, por exemplo, católico não praticante, se não estará a confundir a adesão ao catolicismo com uma atitude puramente cultural, ou, o que seria ainda pior, com a pertença a uma associação de cuja vida e estatutos aproveita o que mais lhe interessa.