quarta-feira, 13 de abril de 2011
Há crises e crises
As raízes da diferença Estava para aqui, como quem sacode moscas importunas, tentando afastar os pensamentos despoletados por aquela reportagem televisiva, vinda das praias do sul da Espanha, quando me veio parar às mãos um texto, que não está assinado, mas que talvez não precise disso, precisamente porque muita gente pensará do mesmo modo, ainda que não saiba como, ou talvez não tenha coragem de exprimi-lo. Crises. A primeira de que me lembro, foi logo a seguir à guerra: Não havia BCE, nem FEEF, nem FMI. Havia um governante que não queria aumentar a despesa, porque sabia que não podia pagar. E não aumentava a receita porque nos sabia pobres. Tudo era muito caro, e chegou um momento em que, mesmo caro, não havia no mercado. Éramos todos pobres, mas honrados e solidários: Graças a Deus e à prevenção de meus pais, nunca experimentei o tormento da fome; mas vi-o no rosto de muitos companheiros de rua, com os quais partilhava o pedaço de broa que eles olhavam nas minhas mãos, quando saía de casa. Era pouco para todos, mas podíamos assim ter em comum, jogos e alegria. Ninguém vivia acima das suas posses, e estávamos atentos para que a nenhum dos nossos vizinhos faltasse o essencial. Repare-se que não estou a fantasiar. Pode ser que não tenha sido assim em todo o país; mas foi o que eu próprio vi e experimentei na minha aldeia. Claro que não se sonhava ainda com uma Páscoa passada no Algarve e muito menos com umas férias nas praias do sul da Espanha. E não morreu ninguém com fome nem desesperado. As outras duas crises vieram muito anos depois: Já havia FMI, mas não se falava ainda de nada que se parecesse com BCE ou FEEF. E sobretudo não tinha havido a ilusão do dinheiro fácil, e a comunicação social era menos ávida do consumismo de leitores e ouvintes. Depois, os políticos, governantes ou não, estavam longe de imitar aquele chefe egípcio da década de sessenta do século passado que um seu émulo do mundo muçulmano comparava com a máquina de um comboio que consumia todo o gás a apitar. Parece pouco, mas faz muita diferença. Tanta que desta vez o comboio não arranca… ou talvez venha a arrancar, depois dos empurrões vindos de fora; mas não temos a certeza se chega ao termo da viagem, ou se virá a perder-se em algum trágico descarrilamento.
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